Nesse final de semana, Gutinho ia visitar o pai. Era o
ritual que ele cumpria a cada 15 dias, como muitas crianças da sua geração,
numa época em que o divórcio ia se tornando muito mais regra do que exceção. Na
prática, como o pai metia o pé, o moleque passava boa parte do tempo com
Epaminondas e Maria Tereza, seus avós.
O privilégio de estar nesta Paraisópolis do final dos anos
90 era ser testemunha ocular do caos e do poder dos contrastes.
Nas vielas era uma profusão de botecos, pequenos comércios e
igrejas neopentecostais, que pululavam em cada esquina como filhotinhos de
coelho.
A tensão do espaço geográfico projetava-se sobre o tempo, e
desembocava numa espécie de mal-estar surdo entre as gerações.
Os mais novos ouviam Racionais MC e vestiam roupas de marcas
australianas de surf, todas fabricadas no Paraguai: Billabong, Rip Curl,
Quiksilver etc., que podiam ser compradas no camelô por 5 reais a peça. Quando
fazia sol, a pirralhada gostava de tirar a camiseta e ostentar o penteado que
na época chamavam de "pica-pau" -- uma espécie de faixa larga
contornando a cabeça inteira do indivíduo.
Já os mais velhos tinham um look clássico, que oscilava em
torno de um mínimo múltiplo comum: bigode, boné da Arisco ou de candidatos a
vereador, pochete, calça Cardin e sandálias, de modo que a única coisa em comum
entre ancestrais e descendentes era a própria ambigüidade, que se manifestava
na alma de todos na forma de uma confusão cega.
Epaminondas Eliseu da Silva guardava dentro de si essa
ambivalência. Alagoano, filho de um fazendeiro rico, mudou-se para Paraisópolis
no começo dos anos 70 com o objetivo de fugir da seca. Vendeu alguns gados e
comprou o terreno, numa época em que a própria Paraisópolis ainda não se
parecia com o favelão que veio a se tornar depois.
A personalidade de seu Minodão fora programada em dois modos
extremos: ou fazia piadas macabras sobre tudo, ou encarnava o papel de
evangelista inapelável, uma espécie de São Paulo ou John Wesley, que, com os
lábios trêmulos, decretava sentenças fatais de condenação ao inferno.
De qualquer modo, seja fazendo piadas ou pregando a palavra
do Senhor, a língua de Epaminondas era uma espada afiada -- e ninguém
permanecia indiferente a ela.
Um de seus versículos preferidos era aquele que dizia:
"quem não crer e for batizado, não será salvo". Também tinha uma
máxima, que ele sempre compartilhava com Gutinho em tom professoral: "tudo
que começa com 'P' não preixta: padre, púliça, paixtô, púlítico, puta...".
Falando em Gutinho, Epaminondas era cego de paixão pelo
neto, e profetizava um futuro glorioso pra ele: "esse míninu vai sê
dotô", de modo a encher o ego do garoto malandro, que se aproveitava da
pseudo-ingenuidade do vô para ostentar um conhecimento que não tinha.
O pai de Gutinho também ficava pasmo ao ver como o próprio
pai tratava o filho e eventualmente confessava, com os olhos rútilos, que nos
anos 70 seu Minodão era o demônio. Autoritário, vivia descendo o cacete nele e
no irmão, ao passo que para o neto era tudo amor puro.
Querem um exemplo? Às vezes, nos finais de semana em que ia
pra lá, Gutinho acabava dormindo com a vó, botando Minodão pra dormir no chão.
O moleque fazia do velho gato e sapato e se gabava disso para um pai cada vez
mais embasbacado.
Dona Maria Tereza também amava o neto, mas tinha
temperamento e mentalidade diferentes do marido. Uma de suas maiores
preocupações era a de amenizar as piadas macabras e sentenças de Epaminondas,
que escandalizava vizinhos, familiares e os amigos grã-finos de tia Mariana.
Ao contrário de Minodão, tia Mariana e Maria Tereza eram
urbanizadas e zelavam pela opinião de amigos, família e vizinhança. A filosofia
da filha mais velha era meio oriental, new age, e acabou influenciando vó
Téquinha, que, apesar de evangélica, gabava-se de ser econômica, comer
frutinhas e fazer exercícios -- reflexos inconscientes da própria filha, que a
mãe absorvera com o objetivo de agradá-la.
De modo que a situação desta família articulava-se em torno
de uma divergência entre duas filosofias e duas éticas: de um lado, a polidez
urbanizada e a espiritualidade naturalista de tia Mariana; de outro, a
intrepidez punk de Epaminondas Eliseu, que combinava-se de forma bombástica com
o seu fervor temerário de mártir evangelista.
Olhando de fora, tinha-se a impressão de que o clã não era
funcional, e que a harmonia da família iria algum dia para o caralho.
Não obstante, esta aparente tensão irreconciliável escondia
uma verdade insondável: Maria Tereza e Epaminondas se amavam loucamente.
Essa verdade camuflada por trás das cortinas seria revelada
para Gutinho, que descobriria a coisa com nuances de crueldade.
Como eu dizia ali em cima, o garoto fazia do vô gato e
sapato e sempre dormia com os velhos, eventualmente botando Epaminondas no
chão.
Mas nesta noite fatal de setembro, acabou não indo dormir na
cama com a vó e instalou-se do lado, em um colchãozinho que ela tinha preparado
pra ele.
Era mais uma daquelas típicas noites de Paraisópolis.
Dedeco, eterno vizinho dos avós, ligara o som do Chevette e
ouvia “Shortinho Saint-Tropez”, do grupo de pagode Bokaloka.
Essa trilha sonora acabou ninando Gutinho, que dormiu por
ali mesmo, com essa canção no segundo plano, enquanto pensava em mais um dia
típico dos seus finais de semana em Paraisópolis: pipa, futebol na rua, Dragon
Ball Z etc.
Até que um ruído macabro interrompeu o seu sono.
Quando olhou para o lado, viu Epaminondas saltando sobre a
vó. E mais: que ele começara a beijá-la, sem que nenhuma resistência se
manifestasse.
Tomado de assalto, levou alguns segundos para que Gutinho
entendesse o que estava acontecendobali. Com um dos olhos abertos, espiava a
cena, de modo a coletar as provas que o levariam inelutavelmente à esta
conclusão fatal: Epaminondas Eliseu estava tentando comer a sua vó!
E foi aí que algo misterioso aconteceu.
Como que avisado pelo sussurro de um anjo da guarda, o avô
deu um passo pra trás e, balbuciando, sentenciou de forma frustrada para a
esposa: "Téquinha, o Gutim tá oiando!"
Arrebatada, a velha colocou-se de pé sobre a cama em um
segundo, num movimento de gato, e, vestindo a camisola, colocou um ponto final
na incursão de Minodão.
Quando acordou, Gutinho não conseguia parar de pensar na
cena que testemunhara, e sobre ela ruminava, ao mesmo tempo que digeria aquele
café da manhã típico da casa, com pamonha, cuscuz e leite com café
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