sábado, 29 de agosto de 2026

Tudo é esquisito para o caipira

Para o caipira tudo é esquisito

Foi o que disse Olavo de Carvalho, em um dos sulfurosos programas da série "True Outspeak".

Essa máxima permaneceu muito tempo guardada na minha memória, até que um dia os pontos se ligaram e a coisa começou a fazer sentido pra mim.

Tudo começou em meados de 2003 e 2004, há mais de 20 anos.

Com a minha família, nos mudamos para Três Lagoas, Mato Grosso do Sul.

Nessa época, eu estava na oitava série do Ensino Fundamental, e a minha mãe me matriculou no SESI. Logo no primeiro dia de aula, por uma razão que me escapa, acabei chegando atrasado.

Nesse dia, o sol torava excitado, e quando cheguei na frente da sala da oitava série A, por uma razão de natureza arquitetural, parte dela se encontrava exposta à luz assassina do sol. Era aula de inglês.

O professor era um gordão de presença retumbante, e com os olhos rútilos, desvelava os segredos do verbo "To Be".

Não querendo atrapalhá-lo, decidi me instalar discretamente na parte iluminada do recinto. Todos os olhos se deslocaram para a minha direção; mas em silêncio, permaneci no meu lugar fingindo naturalidade.

Os outros alunos estavam na porção coberta pela sombra, certamente com o objetivo de escapar do calor mefistotélico da cidade das águas. Mas eu permaneci ali, incólume, exposto à luz do sol, que realmente não me incomodava.

Vocês já devem ter percebido que aos 14 anos de idade, eu era púdico e extremamente tímido. Na hora do intervalo, permaneci sozinho e gozava da companhia inconsciente dos meus pensamentos. Eu só queria saber como evitar o contato com aquele pessoal sem parecer ridículo.

Depois de um tempo, meus colegas começaram a voltar e dois deles vieram na minha direção.

Ambos olharam pra mim, e com os lábios trêmulos e os olhos vazando luz, como que possuídos pelo demônio, sentenciaram de maneira peremptória: "-Istranho! Istranho! Você é o istranho, o isquisito!"

Eu não poderia imaginar que esse veredicto fatal acompanharia toda a minha existência a partir de então.

"Estranho" era a alcunha pela qual as pessoas me chamariam dali por diante.

E eis que chegamos no ponto nevrálgico desta crônica.

Com o tempo, fui percebendo que não era apenas o fato de que permaneci no lado da sala iluminado pelo sol naquele dia fatal o que havia confrontado meus colegas -- toda a minha existência lhes perturbava e era motivo de escândalo.

Foi então que cheguei a esta conclusão fatal: existia um abismo intransmutável entre mim e o caipira.

Vivíamos na mesma cidade, passávamos boa parte do dia juntos como irmãozinhos. Mas algo de natureza metafísica nos separava.

Para mim, era normal imaginar que indivíduos oriundos de lugares diferentes se comportassem de maneira diferente, ao passo que tal pensamento não passava pela cabeça do caipira -- a presença do diferente tomava-o de assalto.

Os advogados do diabo aventam a hipótese de que se tratava de um problema com a minha pessoa especificamente, que não existiria relação com o conceito de diferença de forma geral. Mas é um ledo engano.

Pegue um caipira, e leve-o para contemplar as pirâmides de Gizé: você vai ser surpreendido pelo fato de que ele vai achar tudo aquilo muito "isquisito".

Leve-o para a Capela Sistina, para o museu do Louvre. Tudo lhe parecerá sinistramente estranho, e ele não hesitará em desvelar os seus decretos com a convicção de quem já escamoteou todos as entranhas e mistérios da vida

terça-feira, 31 de março de 2026

O nome é o destino

"O nome é o destino". 

É o que diz Eric Zemmour, expoente da direita francesa, quando em seus discursos troveja contra a liberdade outorgada pelo estado aos pais, que desde a fatídica lei nº 93-22, de 8 de janeiro de 1993, têm o poder de darem a seus filhos os nomes que bem entenderem.

Muitos não  percebem, mas Zemmour compreendeu muito bem esta verdade um tanto elusiva, mas mortalmente profunda: o nome possui um peso importantíssimo na vida do sujeito, investindo-o de uma aura inelutável, contra a qual nem mesmo a vontade mais tenaz pode se opor.

Veja o exemplo do meu amigo Carlo Maltz. Apesar de fazer parte de nosso Areópago Digital, ele não corresponde em nada ao arquétipo do típico intelectual.

Também pudera. Com esse nome? Como a coisa poderia se dar de forma diferente?

Eric do Carmo Ribeiro Silva e Luciano Machado Tomaz são nomes de escritores, de poetas. Soam quase como Camilo Castelo Branco, Manuel Antônio de Almeida. 

Agora Carlo Maltz, não. 

Carlo Maltz é nome de comedor. É nome de fotógrafo buceteiro -- velejador rico e desflorador de modelos sublimes. Tipo Amir Kink, Joshua Slocum, Robert Scheidt, Théo Becker.

É nome de empresário meio gênio e meio sacana, meio milionário e meio quebrado: que tem cobertura em Copacabana em litígio judicial.

Um Carlo Maltz digno deste nome é certamente amigo de grã-finos e mendigos, também frequenta grandes empresários e traficantes; oscila aqui e ali, entre o bas-fond do inferno e o sétimo céu, numa espécie de epopéia dantesca meio dandy.

Na última semana, o nosso amigo teve experiências que confirmaram esta verdade ontológica. Em poucos dias, conseguiu a façanha de perder 20.000 mil dólares, apaixonou-se por uma gostosa e jurou ter 6 filhos com ela (mas no dia seguinte, descobriu que na realidade tratava-se de uma espiã, que incrustara-se em sua vida com o objetivo de sabotá-lo). Na mesma semana, o nosso herói também foi perseguido por mafiosos, e teve que que fugir para outro continente. Um thriller digno de James Bond.
Mas veja bem, nada disso seria possível se o nosso amigo não se chamasse Carlo Maltz. Um Rafael dos Santos Ramalho não poderia viver experiências dessa natureza.

Compartilhei essa ideia com o próprio Carlo Maltz, que achou a coisa engraçada. Inclusive, autorizou-me a ir até o final da inspiração criativa que acabara de receber.

Durante as conversas, ocorreu-me igualmente um insight acerca de outro amigo em comum, e um dos maiores expoentes do movimento olavista: Ronald Robson. Talvez o único dos alunos de Olavo de Carvalho que estudou pormenorizadamente a sua obra -- e que escreveu livros.

O seu talento filosófico é inelutável e estarrecedor, mas o nome permanece obstrutivo: Ronald Robson.
Ronald Robson não é nome de filósofo. É nome de jogador de futebol, é uma mistura de Ronaldinho e Robgol.

Ao pronunciar Ronald Robson, é inevitável para mim não pensar numa narração de Silvio Luís, relatando as jogadas formidáveis de nosso amigo com a camisa amerelinha, driblando uma fila de zagueiros e marcando um golaço de placa.

Veritas filia temporis. Como é que o destino vai resolver a situação paradoxal de nosso amigo, intelectual notável, que possui nome de craque de bola e a sabedoria de um grande filósofo?
Talvez isso seja um sinal da Fortuna, e que as glórias de nossa equipe nacional tenham sido apenas uma imagem de outras glórias, ainda mais auspiciosas, que estão por vir e hão de se desdobrar sobre o destino do Brasil.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Minha esposa é uma matadora de velhinhos

Há alguns anos, eu e minha esposa começamos a nos debruçar sobre a história de nossas famílias. Para isso, devotamo-nos à arte genealógica, cuja prática é bastante privilegiada dentro do vetusto Estado francês. Em geral, graças aos vultosos bancos de dados, os documentos são de fácil acesso, com informações de atestados de batismo, assim como certidões de nascimento, casamento e óbito.

Desde então, minha consorte mergulhou fundo nesta empreitada, ainda mais quando soube que seu avô materno, e bisavô paterno, foram personagens interessantíssimos, participando de dois dos eventos mais ululantes do século XX: a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Adrien Sellier, jovem soldado dourado (logo depois promovido a cabo), foi mobilizado durante a Grande Guerra contra os alemães, sobrevivendo teimosamente às batalhas de Verdun e de la Somme. Segundo o Gérard Cornu, o temível bisavô teria remanescido às hostilidades graças à ajuda de um camarada. No meio da tormenta, encontrara-se encalacrado num dos milhares de buracos de obus do campo de batalha, cujos solos eram letalmente movediços. Só não fora engolido pela terra porque um irmão de trincheira teria segurado sua cabeça, enquanto o solo aspirava-o para dentro de si com a força de uma torrente fatal.

Já o taciturno Gabriel Delacour, seu avô materno, foi afetado a um regimento de cavalaria blindada na Segunda Guerra Mundial. Acabou sucumbindo e feito prisioneiro pelos mesmos alemães, quando as linhas francesas foram quebradas na ousada manobra germânica da floresta das Ardennes. Como muitos outros de sua geração, acabou dispendendo parte da juventude como prisioneiro em um Stalag, aonde viveu e trabalhou de 1940 até 1945.

Definitivamente, a riqueza da matéria-prima soou de maneira fluvial ao ouvido de minha esposa, que desde então, saiu à procura das últimas testemunhas vivas que puderam conviver com os seus avós, em busca de mais detalhes sobre as suas peripécias.

O primeiro veterano a ser visitado foi Jean Benus, eterno vizinho de sua avó Raymonde. O encontro se deu em sua residência demoníaca -- e a conversa entre os dois durou horas a fio, com todos os detalhes sendo gravados no aplicativo de registro de voz.

Depois de alguns dias, surge a notícia fatal: o matusalênico velhinho batera as botas. 

Apesar da idade, a informação nos assaltou com surpresa, pois o nonagenário contador de histórias ostentava saúde homérica.

Na sequência, foi a vez de visitar Simone Sacavin, uma centenária identificada graças a uma foto rarefeita, que estava perdida numa caixa de fotos velha e empoeirada -- dessas que existem na casa de todas as famílias. Tratava-se de um registro dos anos 30, aonde a jovem Simone carregava nos braços um bebêzinho, ninguém menos do que a sua avó materna, Michelle Roussel: futura Michelle Sellier. Não demorou muito para que uma visita à anciã se materializasse. No entanto, pouco tempo depois que ela aconteceu, Simone acabou indo dessa para melhor.

Em seguida, teve também o caso de Jacky Roussel, tio de seu pai. Marinheiro, açougueiro de ponta e caçador. Era um dos maiores contadores de histórias da paróquia. Ao som de suas palavras, tínhamos a impressão de viajar no tempo; era uma testemunha eloqüente de um mundo que já não existe mais, e tinha o dom natural de ser o centro das atenções de uma platéia aquiescente. 

Depois de algumas visitas, nosso querido batedor -- também dotado de saúde homérica -- acabou sucumbindo face à luta contra um câncer traiçoeiro.

Dito isso, o mesmo script se repetiu com a visita que fez à Suzanne (derradeira rebenta dos 20 filhos de seus bisavós); assim como à Claude, o marido da prima de seu avô paterno: todos acabaram passando desta vida, logo depois de compartilharem com minha esposa um momento proustiano de reminiscências deliciosas.

O óbvio ululante é que todas essas histórias têm um fundo em comum: o fato de que a morte dos anfitriões se deu ulteriormente à visita da minha dileta.

Dotada de traços finos, assim como de rara feminilidade em tempos de feminismo militante, à primeira vista, tem-se diante da minha companheira a impressão de se estar na presença de uma Vênus -- ou de uma madame étérea, dessas dotadas de uma aura que remete às modelos de Bouguereau: uma delicadeza fisionômica e um semblante piedoso.

De fato, é uma delicadeza que não se restringe à beleza física, mas anda acompanhada de uma doçura de alma. Sempre atenta à necessidade do próximo, mais do que às suas próprias, ela tem uma candura que é coerente à suavidade do seu semblante. Ama as coisas e sentimentos leves; também se alimenta com uma frugalidade monástica: gosta de comer frutinhas, legumes e peixes...

Concordo com meus amigos muçulmanos, quando dizem que não é de bom agouro expor publicamente a virtudes da propria esposa. Mas nesse caso é míster fazê-lo, pois os auspícios macabros da morte são frequentemente acompanhandos pela delicadeza mortal de uma refinadíssima mulher.