Para o caipira tudo é esquisito
Foi o que disse Olavo de Carvalho, em um dos sulfurosos programas da série "True Outspeak".
Essa máxima permaneceu muito tempo guardada na minha memória, até que um dia os pontos se ligaram e a coisa começou a fazer sentido pra mim.
Tudo começou em meados de 2003 e 2004, há mais de 20 anos.
Com a minha família, nos mudamos para Três Lagoas, Mato Grosso do Sul.
Nessa época, eu estava na oitava série do Ensino Fundamental, e a minha mãe me matriculou no SESI. Logo no primeiro dia de aula, por uma razão que me escapa, acabei chegando atrasado.
Nesse dia, o sol torava excitado, e quando cheguei na frente da sala da oitava série A, por uma razão de natureza arquitetural, parte dela se encontrava exposta à luz assassina do sol. Era aula de inglês.
O professor era um gordão de presença retumbante, e com os olhos rútilos, desvelava os segredos do verbo "To Be".
Não querendo atrapalhá-lo, decidi me instalar discretamente na parte iluminada do recinto. Todos os olhos se deslocaram para a minha direção; mas em silêncio, permaneci no meu lugar fingindo naturalidade.
Os outros alunos estavam na porção coberta pela sombra, certamente com o objetivo de escapar do calor mefistotélico da cidade das águas. Mas eu permaneci ali, incólume, exposto à luz do sol, que realmente não me incomodava.
Vocês já devem ter percebido que aos 14 anos de idade, eu era púdico e extremamente tímido. Na hora do intervalo, permaneci sozinho e gozava da companhia inconsciente dos meus pensamentos. Eu só queria saber como evitar o contato com aquele pessoal sem parecer ridículo.
Depois de um tempo, meus colegas começaram a voltar e dois deles vieram na minha direção.
Ambos olharam pra mim, e com os lábios trêmulos e os olhos vazando luz, como que possuídos pelo demônio, sentenciaram de maneira peremptória: "-Istranho! Istranho! Você é o istranho, o isquisito!"
Eu não poderia imaginar que esse veredicto fatal acompanharia toda a minha existência a partir de então.
"Estranho" era a alcunha pela qual as pessoas me chamariam dali por diante.
E eis que chegamos no ponto nevrálgico desta crônica.
Com o tempo, fui percebendo que não era apenas o fato de que permaneci no lado da sala iluminado pelo sol naquele dia fatal o que havia confrontado meus colegas -- toda a minha existência lhes perturbava e era motivo de escândalo.
Foi então que cheguei a esta conclusão fatal: existia um abismo intransmutável entre mim e o caipira.
Vivíamos na mesma cidade, passávamos boa parte do dia juntos como irmãozinhos. Mas algo de natureza metafísica nos separava.
Para mim, era normal imaginar que indivíduos oriundos de lugares diferentes se comportassem de maneira diferente, ao passo que tal pensamento não passava pela cabeça do caipira -- a presença do diferente tomava-o de assalto.
Os advogados do diabo aventam a hipótese de que se tratava de um problema com a minha pessoa especificamente, que não existiria relação com o conceito de diferença de forma geral. Mas é um ledo engano.
Pegue um caipira, e leve-o para contemplar as pirâmides de Gizé: você vai ser surpreendido pelo fato de que ele vai achar tudo aquilo muito "isquisito".
Leve-o para a Capela Sistina, para o museu do Louvre. Tudo lhe parecerá sinistramente estranho, e ele não hesitará em desvelar os seus decretos com a convicção de quem já escamoteou todos as entranhas e mistérios da vida
