segunda-feira, 16 de março de 2026

Minha esposa é uma matadora de velhinhos

Há alguns anos, eu e minha esposa começamos a nos debruçar sobre a história de nossas famílias. Para isso, devotamo-nos à arte genealógica, cuja prática é bastante privilegiada dentro do vetusto e organizado Estado francês. Em geral, graças aos vultosos e bem alimentados bancos de dados, os documentos são de fácil acesso, com informações de atestados de batismo, assim como certidões de nascimento, casamento e óbito.

Desde então, minha consorte mergulhou fundo nesta empreitada, ainda mais quando soube que seu avô materno, e bisavô paterno, foram personagens interessantíssimos, participando de dois dos eventos mais ululantes do século XX: a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Adrien Sellier, jovem soldado dourado (logo depois promovido a cabo), foi mobilizado durante a Grande Guerra contra os alemães, sobrevivendo teimosamente às batalhas de Verdun e de la Somme. Segundo o Gérard Cornu, o temível bisavô teria remanescido às hostilidades graças à ajuda de um camarada. No meio da tormenta, encontrara-se encalacrado num dos milhares de buracos de obus do campo de batalha, cujos solos eram letalmente movediços. Só não fora engolido pela terra porque um irmão de trincheira teria segurado sua cabeça, enquanto o solo aspirava-o para dentro de si com a força de uma torrente fatal.

Já o taciturno Gabriel Delacour, seu avô materno, foi afetado a um regimento de cavalaria blindada na Segunda Guerra Mundial. Acabou sucumbindo e feito prisioneiro pelos mesmos alemães, quando as linhas francesas foram quebradas na ousada manobra germânica da floresta das Ardennes. Como muitos outros de sua geração, acabou dispendendo parte da juventude como prisioneiro em um Stalag, aonde viveu e trabalhou de 1940 até 1945.

Definitivamente, a riqueza da matéria-prima soou de maneira fluvial ao ouvido de minha esposa, que desde então, saiu à procura das últimas testemunhas vivas que puderam conviver com os seus avós, em busca de mais detalhes sobre as suas peripécias.

O primeiro veterano a ser visitado foi Jean Benus, eterno vizinho de sua avó Raymonde. O encontro se deu em sua residência demoníaca -- e a conversa entre os dois durou horas a fio, com todos os detalhes sendo gravados no aplicativo de registro de voz.

Depois de alguns dias, surge a notícia fatal: o matusalênico velhinho batera as botas. 

Apesar da idade, a informação nos assaltou com surpresa, pois o nonagenário contador de histórias ostentava saúde homérica.

Na sequência, foi a vez de visitar Simone Sacavin, uma centenária identificada graças a uma foto rarefeita, aleatoriamente perdida numa caixa de fotos velha e empoeirada -- dessas que existem na casa de todas as famílias. Tratava-se de um registro dos anos 30, aonde a jovem Simone carregava nos braços um bebêzinho, ninguém menos do que a sua avó materna, Michelle Roussel: futura Michelle Sellier. Não demorou muito para que uma visita à anciã se materializasse. No entanto, pouco tempo depois que ela aconteceu, Simone acabou indo dessa para melhor.

Em seguida, teve também o caso do arquetípico Jacky Roussel, tio de seu pai. Marinheiro, açougueiro de ponta e caçador. Era um dos maiores contadores de histórias da paróquia. Ao som de suas palavras, tínhamos a impressão de viajar no tempo; era uma testemunha eloqüente de um mundo que já não existe mais, e tinha o dom natural de ser o centro das atenções de uma platéia aquiescente. 

Depois de algumas visitas, nosso querido batedor -- também dotado de saúde homérica -- acabou sucumbindo face à luta contra um câncer traiçoeiro.

Dito isso, o mesmo script se repetiu com a visita que fez à Suzanne (derradeira rebenta dos 20 filhos de seus bisavós); assim como à Claude, o marido da prima de seu avô paterno: todos acabaram passando desta vida, logo depois de compartilharem com minha esposa um momento proustiano de reminiscências deliciosas.

O óbvio ululante é que todas essas histórias têm um fundo em comum: o fato de que a morte dos anfitriões se deu ulteriormente à visita da minha dileta.

Dotada de traços finos, assim como de rara feminilidade em tempos de feminismo militante, à primeira vista, tem-se diante da minha companheira a impressão de se estar na presença de uma Vênus -- ou de uma madame étérea, dessas dotadas de uma aura que remete às modelos de Bouguereau: uma delicadeza fisionômica e um semblante piedoso.

De fato, é uma delicadeza que não se restringe à beleza física, mas anda acompanhada de uma doçura de alma. Sempre atenta à necessidade do próximo, mais do que às suas próprias, ela tem uma candura de alma que é coerente à suavidade do seu semblante. Ama as coisas, palavras e sentimentos leves; também se alimenta com uma frugalidade monástica: frutinhas, legumes e peixes.

Concordo com meus amigos muçulmanos, que não é de bom agouro expor publicamente a virtudes de sua esposa. Mas nesse caso é míster fazê-lo, pois a idéia dessa crônica é colocar em evidência o fato de que os auspícios macabros da morte muitas vezes são acompanhandos pela delicadeza mortal da suavidade feminina.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Do Capeta o Fiat, de Deus o Bitcoin

Hoje eu vou falar sobre bitcoin e blockchain.
Pelo que entendi, a blockchain é um arquivo que contém todas as transações que já ocorreram na história do Bitcoin. Todos os computadores que fazem parte da rede possuem uma cópia integral desse arquivo.
Quando uma pessoa deseja realizar uma transação em BTC, a rede propõe um problema matemático a todos os nós que a constituem. Aquele computador que consegue resolvê-lo com mais rapidez ganha o direito de inserir uma nova linha neste arquivo histórico associada a esta nova transação -- em troca, recebe uns milésimos ou centésimos de bitcoin, que é a sua motivação para continuar fornecendo a potência computacional necessária pra manter o sistema girando.
Uma vez que a transação foi executada, todos os outros computadores da rede são atualizados com este novo arquivo. Quando pelo menos 50% deles são atualizados com essa nova transação, a operação é homologada e materializada.
Trata-se de um mecanismo extremamente poderoso, descentralizado. Veja que não existe um servidor único que agrupa toda a lógica, todas as informações. Mas sim uma rede na qual todos nós, pobres coitados de carne e osso, podemos participar, mesmo com um computadorzinho furreba.
A blockchain é uma das maiores invenções da história da humanidade e aparece num momento em que quase todos os governos do mundo obram no sentido de restringir a liberdade dos seus cidadãos, monitorando cada pequeno detalhe de suas vidas, de suas transações comerciais.
Isso me faz pensar na profecia de São João, o apóstolo amado, acerca do final dos tempos, quando dizia que neste período da história, quem não tivesse a marca da besta não poderia “nem comprar nem vender”.
Ora, se em algum momento da história as pessoas só vão poder comprar e vender se tiverem a tal da marca da besta, é porque de antemão um sistema de controle capaz de monitorar cada meandro da sua vida já terá sido estabelecido.
Portanto, é exatamente no crepúsculo da possibilidade de comprar e vender com liberdade que uma solução miraculosa chamada blockchain aparece.
No Apocalipse, também está escrito que nem todos terão a marca mefistofélica. Ora, se nem todos a ostentarão, quer dizer que alguns afortunados ainda terão a capacidade de transacionar com certa liberdade -- supostamnte um pequeno grupo discreto e relativamente marginal. Conjecturo aqui que isto se dê por intermédio da blockchain. Portanto, você que ainda não tem Bitcoin…
Caso você até aqui ainda esteja perdido e ainda não estiver entendendo bulhufa sobre o assunto, assista aos vídeos de Renato Três Oitão, fazendo abstração do seu jeito meio tresloucado de baiano viril caçador de pica frouxa -- Renato é um indivíduo extremamente inteligente, que diz coisas mortalmente sérias. (Renato também faz parte de grandes sociedades de gênios do mundo, o que pode parecer paradoxal com a sua aura fatal).
Ele tem um curso de 300 reais chamado “Bitcoin em Auto-Custódia”.
Ouçam a mensagem deste homem e tomem o conteúdo dela como um aviso divino.
O pior está chegando e você precisa estar preparado.
Lembre-se que na Bíblia, antes de destruir Sodoma e Gomorra, Deus avisou Ló; antes de destruir o mundo no dilúvio, Deus avisou Noé para que ele se preparasse. E hoje, senhores, Renato Três Oitão, assim como outros profetas que emergem por todo o mundo, empreendem uma epopéia proselitista com o objetivo de ensinar as pessoas a operar Bitcoin em auto-custódia, transacionando fora do legacy, de modo a viver de maneira coerente ao seu direito natural de homem.
Sejamos prudentes, pois vivemos em tempos maus.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O perfeccionismo é uma forma sofisticada de orgulho

Pessoal, olha só: muitas pessoas já sabem há muito tempo aquilo que devem fazer para aprimorar a sua vida, para elevar o nível de suas almas, até mesmo sua situação econômica, mas não o fazem porque são demasiadamente perfeccionistas.
No entanto, enquanto você não se livrar disto (trata-se de uma coisa que fica dentro de você), mesmo quando pensar que as condições necessárias para o sucesso do seu empreendimento estão presentes, ele não se materializará, pois a efetividade e a altura à qual você vai conseguir se elevar depende substancialmente de um único ponto importante: do quanto você é capaz de humilhar a si mesmo.
O Senhor Jesus Cristo disse que aquele que se humilhar será exaltado; aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado.
Na última crônica recomendei que algumas pessoas iniciassem a leitura dos clássicos da grande literatura. Mas sabe por que muitos nunca o farão? Porque dizem: “Eu não entendo nada”. Eu não aguento! A ignorância, o tédio… mas trata-se do preço que deve ser pago para que você domine esta nova arte, que tem um preço de entrada: é necessário se expor, sentir um pouquinho de dor.
Imagine que você acabou de entrar para a academia. Pode ser que esteja gigantescamente gordo ou ridiculamente magro, que diga para si mesmo: “Não vou fazer o exercício do supino, porque só consigo levantar 5 kg”. Pois faça com 5 kg mesmo, abstraindo o fato de que o conjunto de bodybuilders e gostosas acharão isso ridículo… a atitude corajosa de fazer esse exercício terá sido muito mais importante para o seu sucesso do que os supinos que você fizer levantando 50 kg, quando já for um monstro: é a disposição de se humilhar que faz milagres.
Faça, cala a boca e confie. Antes de ressuscitar, morra em primeiro lugar.
Quando eu ainda era um estudante de Engenharia Mecânica, na Faculdade de Ilha Solteira, nós éramos obrigados a dominar conceitos extremamente complexos. Me recordo, por exemplo, que durante uma aula de álgebra linear, em algum momento a coisa ficou meio constrangedora, pois eu fazia todas as perguntas ali. Era como se todos estivessem entendendo tudo perfeitamente, que eu fosse o único aluno a não conseguir ligar lé com cré: começaram inclusive a ficar bravos comigo por causa da série infindável de indagações.
Parênteses: acredito que álgebra linear, cálculo diferencial e integral etc. deviam vir depois das específicas ou ao mesmo tempo, porque, quando você não compreende as aplicações reais desses instrumentos matemáticos, fica complicado apreendê-los. Fecha parênteses.
Depois da aula, perguntei aos meus colegas se eles estavam conseguindo dominar o conteúdo, e o que me disseram foi surpreendente: eles também não tinham entendido porra nenhuma. Só não perguntavam para o professor porque o medo de parecer ridículo, de parecer louco, era muito maior do que o desejo de aprender.
A estrutura ontológica do verdadeiro eu
Então olha só: não se apegue à sua imagem, tal como ela é, no instante presente. Durante a sua vida você vai colecionar uma série delas, mas nenhuma corresponde especificamente a quem você é de fato. Essa representação — quem você é — só estará limpidamente clara no dia da sua morte, quando, como ensinava o professor Olavo de Carvalho, você tiver a posse de todos os seus momentos ao mesmo tempo, de modo a tomar consciência da forma que eles possuem quando estão combinados: é apenas nesse instante que ficará evidente o quão bonito ou feio você é de fato.
As criaturas do inferno terão uma aparência monstruosa porque o seu corpo será uma imagem da alma esculpida pelos indivíduos que tiverem ido pra lá, por mais lindas que elas possam ter sido durante a vida. Mesma lógica aplicando-se àquelas que forem para o céu, mas no sentido inverso.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A reconquista do Real: como sair da alienação digital e sensorial da modernidade

O indivíduo na modernidade encontra-se cada vez mais alienado da realidade concreta. As ferramentas que lhe são oferecidas para fugir do real são hoje extremamente poderosas e refinadas.

Entre elas destaca-se o design viciante do scroll infinito das redes sociais, que mantém o cérebro em estado permanente de excitação superficial e dá a ilusão de pertencimento. Temos também os videojogos, cada vez mais imersivos, que sequestram crianças e adolescentes desde tenra idade e os instalam em mundos paralelos onde o real parece pálido e sem graça. Há ainda a música contemporânea -- especialmente aquelas faixas de 3 ou 4 minutos perfeitamente calculadas para gerar emoções totalizantes. Quem ouve sertanejo, funk, trap ou gospel o dia inteiro acaba por não suportar mais o silêncio; qualquer experiência fora daquele casulo sonoro torna-se insuportável. Outros reagem ao vazio com comida compulsiva, banhos intermináveis, drogas ou qualquer estímulo que preencha o menor espaço de ausência.
Os mecanismos de fuga são infinitos e profundos.
Mas é possível reverter esse processo. Existem antídotos -- remédios antigos, hábitos quase esquecidos -- que têm o poder de reinstalar progressivamente o indivíduo no Real. Uma vez adquiridos, o silêncio deixa de ser um inimigo e passa a ser um dos maiores prazeres da existência.
Comece pela alta cultura literária: leia os grandes romances, aqueles que exigem atenção sustentada e mergulho profundo. Assista ao grande cinema -- não às séries rápidas da Netflix, mas a Fellini, Bergman, Tarkovski, Wenders, os mestres que filmavam o tempo, o rosto humano, o mistério da existência. Desenvolva alguma habilidade artística: pintura, desenho, um instrumento musical, escrita. Esses exercícios não são luxo, são treinamento de alma.
É exatamente como o paladar. A criança rejeita quase tudo que é novo ou complexo; o adulto que cultivou o gosto consegue descrever um vinho com trinta ou quarenta matizes diferentes. O mesmo acontece com a percepção da realidade: esses hábitos tradicionais vão, aos poucos, afiando os seus sensores. Você começa a notar perfumes que antes passavam despercebidos, texturas, diferenças sutis de luz e cor, o peso do ar, o som real das coisas.
Não se trata de forçar atenção mística aos detalhes. Trata-se de construir instrumentos internos -- lentes, antenas -- que só se formam com tempo e dedicação às artes antigas. Quando esses instrumentos estão prontos, o mundo real revela-se infinitamente mais rico do que qualquer feed, qualquer jogo, qualquer playlist.
O silêncio, então, deixa de ser vazio. Torna-se pleno. E você finalmente volta para casa.