terça-feira, 31 de março de 2026

O nome é o destino

"O nome é o destino". 

É o que diz Eric Zemmour, expoente da direita francesa, quando em seus discursos troveja contra a liberdade outorgada pelo estado aos pais, que desde a fatídica lei nº 93-22, de 8 de janeiro de 1993, têm o poder de darem a seus filhos os nomes que bem entenderem.

Muitos não  percebem, mas Zemmour compreendeu muito bem esta verdade um tanto elusiva, mas mortalmente profunda: o nome possui um peso importantíssimo na vida do sujeito, investindo-o de uma aura inelutável, contra a qual nem mesmo a vontade mais tenaz pode se opor.

Veja o exemplo do meu amigo Carlos Stein. Apesar de fazer parte de nosso Areópago Digital, ele não corresponde em nada ao arquétipo do típico intelectual.

Também pudera. Com esse nome? Como a coisa poderia se dar de forma diferente?

Eric do Carmo Ribeiro Silva e Luciano Machado Tomaz são nomes de escritores, de poetas. Soam quase como Camilo Castelo Branco, Manuel Antônio de Almeida. 

Agora Carlos Stein, não. 

Carlos Stein é nome de comedor. É nome de fotógrafo buceteiro -- velejador rico, predador e desflorador de modelos sublimes. Tipo Amir Kink, Joshua Slocum, Robert Scheidt, Théo Becker.

É nome de empresário meio gênio e meio sacana, meio milionário e meio quebrado: que tem cobertura em Copacabana em litígio judicial.

Um Carlos Stein digno deste nome é certamente amigo de grã-finos e mendigos, também frequenta grandes empresários e traficantes; oscila aqui e ali entre o bas-fond do inferno e o sétimo céu, numa espécie de epopéia dantesca meio dandy.

Na última semana, o nosso amigo teve experiências que confirmaram esta verdade ontológica. Em poucos dias, conseguiu a façanha de perder 20.000 mil dólares, apaixonou-se por uma gostosa e jurou ter 6 filhos com ela (mas no dia seguinte, descobriu que na realidade tratava-se de uma espiã, que incrustara-se em sua vida com o objetivo de sabotá-lo). Na mesma semana, o nosso herói também foi perseguido por mafiosos, e teve que que fugir para outro continente. Um thriller digno de James Bond.

Mas veja bem, nada disso seria possível se o nosso amigo não se chamasse Carlos Stein. Um Rafael dos Santos Ramalho não poderia viver experiências dessa natureza.

Compartilhei essa ideia com o próprio Carlos Stein, que achou a coisa engraçada. Inclusive, autorizou-me a ir até o final da inspiração criativa que eu acabara de receber.

Durante as conversas, ocorreu-me igualmente um insight acerca de outro amigo em comum, e um dos maiores expoentes do movimento olavista: Ronald Robson. Talvez o único dos alunos de Olavo de Carvalho que estudou pormenorizadamente a sua obra -- e que escreveu livros.

O seu talento filosófico é inelutável e estarrecedor, mas o nome permanece obstrutivo: Ronald Robson.

Ronald Robson não é nome de filósofo. É nome de jogador de futebol, é uma mistura de Ronaldinho e Robgol.

Ao pronunciar Ronald Robson, é inevitável para mim não pensar numa narração de Silvio Luis, relatando as jogadas formidáveis de nosso amigo com a camisa amerelinha, driblando uma fila de zagueiros e marcando um golaço de placa.

Eis uma contradição acerca da qual espero que o tempo possa elucidar -- veritas filia temporis. Como é que o destino vai resolver a situação paradoxal de nosso amigo, intelectual notável, que possui nome de craque de bola e a sabedoria de um grande filósofo?

Talvez isso seja um sinal da Fortuna, e que as glórias da nossa equipe nacional talvez tenham sido apenas uma imagem de outras glórias, ainda mais auspiciosas, que estão por vir e hão de se desdobrar sobre o destino do Brasil. 


segunda-feira, 16 de março de 2026

Minha esposa é uma matadora de velhinhos

Há alguns anos, eu e minha esposa começamos a nos debruçar sobre a história de nossas famílias. Para isso, devotamo-nos à arte genealógica, cuja prática é bastante privilegiada dentro do vetusto Estado francês. Em geral, graças aos vultosos bancos de dados, os documentos são de fácil acesso, com informações de atestados de batismo, assim como certidões de nascimento, casamento e óbito.

Desde então, minha consorte mergulhou fundo nesta empreitada, ainda mais quando soube que seu avô materno, e bisavô paterno, foram personagens interessantíssimos, participando de dois dos eventos mais ululantes do século XX: a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Adrien Sellier, jovem soldado dourado (logo depois promovido a cabo), foi mobilizado durante a Grande Guerra contra os alemães, sobrevivendo teimosamente às batalhas de Verdun e de la Somme. Segundo o Gérard Cornu, o temível bisavô teria remanescido às hostilidades graças à ajuda de um camarada. No meio da tormenta, encontrara-se encalacrado num dos milhares de buracos de obus do campo de batalha, cujos solos eram letalmente movediços. Só não fora engolido pela terra porque um irmão de trincheira teria segurado sua cabeça, enquanto o solo aspirava-o para dentro de si com a força de uma torrente fatal.

Já o taciturno Gabriel Delacour, seu avô materno, foi afetado a um regimento de cavalaria blindada na Segunda Guerra Mundial. Acabou sucumbindo e feito prisioneiro pelos mesmos alemães, quando as linhas francesas foram quebradas na ousada manobra germânica da floresta das Ardennes. Como muitos outros de sua geração, acabou dispendendo parte da juventude como prisioneiro em um Stalag, aonde viveu e trabalhou de 1940 até 1945.

Definitivamente, a riqueza da matéria-prima soou de maneira fluvial ao ouvido de minha esposa, que desde então, saiu à procura das últimas testemunhas vivas que puderam conviver com os seus avós, em busca de mais detalhes sobre as suas peripécias.

O primeiro veterano a ser visitado foi Jean Benus, eterno vizinho de sua avó Raymonde. O encontro se deu em sua residência demoníaca -- e a conversa entre os dois durou horas a fio, com todos os detalhes sendo gravados no aplicativo de registro de voz.

Depois de alguns dias, surge a notícia fatal: o matusalênico velhinho batera as botas. 

Apesar da idade, a informação nos assaltou com surpresa, pois o nonagenário contador de histórias ostentava saúde homérica.

Na sequência, foi a vez de visitar Simone Sacavin, uma centenária identificada graças a uma foto rarefeita, que estava perdida numa caixa de fotos velha e empoeirada -- dessas que existem na casa de todas as famílias. Tratava-se de um registro dos anos 30, aonde a jovem Simone carregava nos braços um bebêzinho, ninguém menos do que a sua avó materna, Michelle Roussel: futura Michelle Sellier. Não demorou muito para que uma visita à anciã se materializasse. No entanto, pouco tempo depois que ela aconteceu, Simone acabou indo dessa para melhor.

Em seguida, teve também o caso de Jacky Roussel, tio de seu pai. Marinheiro, açougueiro de ponta e caçador. Era um dos maiores contadores de histórias da paróquia. Ao som de suas palavras, tínhamos a impressão de viajar no tempo; era uma testemunha eloqüente de um mundo que já não existe mais, e tinha o dom natural de ser o centro das atenções de uma platéia aquiescente. 

Depois de algumas visitas, nosso querido batedor -- também dotado de saúde homérica -- acabou sucumbindo face à luta contra um câncer traiçoeiro.

Dito isso, o mesmo script se repetiu com a visita que fez à Suzanne (derradeira rebenta dos 20 filhos de seus bisavós); assim como à Claude, o marido da prima de seu avô paterno: todos acabaram passando desta vida, logo depois de compartilharem com minha esposa um momento proustiano de reminiscências deliciosas.

O óbvio ululante é que todas essas histórias têm um fundo em comum: o fato de que a morte dos anfitriões se deu ulteriormente à visita da minha dileta.

Dotada de traços finos, assim como de rara feminilidade em tempos de feminismo militante, à primeira vista, tem-se diante da minha companheira a impressão de se estar na presença de uma Vênus -- ou de uma madame étérea, dessas dotadas de uma aura que remete às modelos de Bouguereau: uma delicadeza fisionômica e um semblante piedoso.

De fato, é uma delicadeza que não se restringe à beleza física, mas anda acompanhada de uma doçura de alma. Sempre atenta à necessidade do próximo, mais do que às suas próprias, ela tem uma candura que é coerente à suavidade do seu semblante. Ama as coisas e sentimentos leves; também se alimenta com uma frugalidade monástica: gosta de comer frutinhas, legumes e peixes...

Concordo com meus amigos muçulmanos, quando dizem que não é de bom agouro expor publicamente a virtudes da propria esposa. Mas nesse caso é míster fazê-lo, pois os auspícios macabros da morte são frequentemente acompanhandos pela delicadeza mortal de uma refinadíssima mulher. 

domingo, 16 de novembro de 2025

As fontes da vida no coração

Nada mais dramático do que um temperamento fleumático combinado com uma mente de natureza filosófica. O lado fleumático te faz naturalmente adaptável a qualquer tipo de circunstância, ao passo que a natureza filosófica -- e a tendência irresistível à reflexão -- instala com frequência o individuo num tal estado de dúvida, que não se é capaz de afirmar praticamente nada sobre nada. Cada problema, cada disputa, produz na sua mente dezenas de argumentos a favor, e dezenas de outros contra para cada um dos lados em jogo.

Por que estou falando disso? Sim, acabei de me lembrar. É porque gostaria de dizer algo sobre a importância do nosso coração. Sobre o fato de que ele não se limita ao órgão de carne disposto ao centro do nosso peito, levemente destacado para o lado esquerdo. "No coração residem as fontes da vida", já dizia o sábio Salomão.

O fato é que recentemente tive uma espécie de encontro com ele, meu coração. Foi como se depois de anos de elucubrações e estudos acerca do seu funcionamento fisiológico, da sua simbologia, ele tivesse decidido se apresentar para mim -- dotado de personalidade e com o objetivo de estabelecer um diálogo.

- "Olá Eric, prazer. Eu sou o seu coração". Foi o que me sussurrou enquanto eu tomava banho -- pensar enquanto se toma banho é um dos grandes prazeres da vida -- e convenceu-me de que eu deveria lutar mais pelas coisas que amo, ao invés de simplesmente me adaptar às circustâncias (fazendo jus à descrição que fiz no primeiro parágrafo, quando mencionava os desafios de uma natureza à la fois fleumática e filosófica).

Ele se apresentou trazendo consigo a companhia de uma pontada no peito, que se parece com uma dor, mas não é exatamente uma. Sabe aquela sensação que você tem quando vai ao profissional que destrava as costas, cujo nome esqueci (sou péssimo com o vocabulário médico-farmacêutico em geral), e que após uma boa estralada, faz você se sentir como se tivesse ressuscitado dos mortos? Foi isso, misturado com a percepção de que a névoa negra que pairava em torno do meu coração estivesse desaparecendo, como a luz da noite que se desmancha na presença da aurora.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

SOBRE CRESCER


O crescimento depende do aprendizado. E aprender, dos nossos erros. Os nossos erros, da CORAGEM de ser reprovado... De fazer o papel que você odeia. De prescindir dos aplausos e honrarias.

A coragem anda de mãos dadas com a fé, essa ferramenta usada por quem costuma andar no escuro. Quem caminha assim pensa que tá indo pra algum lugar. É o tipo de pessoa que não tem medo do que o véu da ausência de luz esconde. Mesmo que seja sua própria morte. (A fé é a conduta de quem aprendeu a morrer pra viver).

Quem é louco pra andar no breu também é louco pra andar sobre as águas e sobre o fogo. É a loucura da imunidade. Como se nessas condições extremas existisse a possibilidade de resgate. Da boa vontade e interesse de alguém indiferente à lógica das coisas. À lógica da morte e da entropia. Um interesse dramaticamente improvável quando o louco não tem nada pra dar além da própria loucura. Uma oferta somente aceita se enfeitada com os adornos de um inexplicável caso de amor. Entre aquilo que é e o que não é. Entre fugacidade e eternidade. Entre o fugidio e o perene. Presença e ausência. No casamento da dualidade. Do nada com toda a existência. Da majestade com o pó.

O amor é a seiva da árvore do crescimento. Crescer é viver e não existe outra forma de fazer isso. Só vivendo. A vida é o próprio amor. É o próprio Deus!

sexta-feira, 11 de março de 2011

O ENGENHEIRO E O ADVOGADO

Emoldurados na haste cartesiana, a lógica engenheirística apanha todas as artimanhas sofistas dos bacharéis. Sua figura é controvertida para nós, os engenheiros. Os seus métodos de persuasão e leques argumentativos não escapam ao nosso horizonte - inclusive sua dissimulação.

Na entrada do escritório da minha advogada existe um passarinho. Dentro dele, um sensor de movimento atua um assobio ingênuo toda vez que alguém passa pela porta. É como se fôssemos arrebatados para o bosque encantado no meio da selva burocrática. Os clientes não se dão conta de que a obra de arte é apenas um dispositivo para informar que alguma pessoa se aproxima e indicar o tempo necessário para que a grana seja escondida no bunker (todo escritório de advocacia tem um bunker). Não tem nada a ver com arte! O bom cidadão não percebe isso.

Para piorar, a única literatura disponível no portarevistas é a Revista Caras, como se o único interesse que temos na vida fosse BBB e a novela das oito. A lógica é simples: o repertório de vestidos e gostosas visa evitar que o interesse por tributação seja disseminado nas mentes vazias de mulheres e homens.

Quando entro na sala sou avisado sobre o ajuste elevado do aluguel. Ela justifica a alíquota com a mensalidade alta da faculdade de sua filha e com a ausência de mensalidade da minha. Como se fosse uma compensação pelo benefício de estudar sem pagar. Ela se esquece dos meus impostos, penso. E penso mais. Penso sobre inflação, política fiscal, justiça social, câmbio e taxa de juro.

Como bom engenheiro, sucinto, pondero obediente: - "Sim, a senhora está certa!".
Ela finge que não sabe, como boa advogada.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SE DEUS É DINÂMICO, O CAPETA É ESTÁTICO.

A literatura biblica sinaliza para a importância da flexibilidade, uma vez que os protagonistas da existência se superam a cada dia numa complexidade tal que o nosso Código Penal jamais poderia prever.

Jesus disse aos que resistiam à sua nova perspectiva da lei, no que diz respeito ao sábado: "O Sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do Sábado." (Marcos 2:27)

Sinal de que se o sistema não funciona mais de maneira satisfatória, deve-se trocá-lo por outro. Se sua mensagem não responde nossas indagações, trocamo-la por outra mais eloquente. Algo essencialmente não-religioso, virtuosamente cristão, antropocêntrico como o próprio Deus.

O desígnio de Deus na forma da dignidade humana sobrevive desde o sempre. O apego ao absoluto e as respostas para todas as perguntas se encontram no cemitério - junto com aqueles que guardam o sábado e a si mesmos da vida.

Se Deus é dinâmico, eu quero ser também.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

PRESENÇA EXTRAORDINÁRIA, AUSÊNCIA ORDINÁRIA!

Fiquei sabendo que apareci no vídeo que fizeram em homenagem ao pastor que orientou a vida da Mariel durante seu período de faculdade em Curitiba, do qual não participei. Nada mal para quem já conseguiu a façanha de em poucos meses de namoro aparecer no vídeo de casamento de duas primas dela - uma do lado do pai e outra do lado da mãe. Nada mal para mim, de tão poucas amizades, desengonçado, mal barbeado, dado à plenitude do descompromisso social.

Principalmente nesse tempo em que as amizades ocorrem no campo virtual, a dimensão social da minha existência tem sido solapada pela insuficiente habilidade que possuo com toda a parafernália da tecnologia moderna.

Minha namorada é diferente de mim. É high-tec. Do tipo que sabe mexer nas redes sociais e que conhece as suas implicações. Com seu apoio já aderi ao skype, twitter, blogspot e mais recentemente ao facebook.

Embora não chegue aos pés de sua maestria de quem vive na internet e navega na vida, tenho encontrado disposição para responder os raros recados do orkut, me preocupado com a atualização deste blog e pontilhado o twitter, eventualmente, com os lapsos que me ocorrem.

A graça da vida compensa os meus desequilíbrios com os seu sinais. Não acreditava na premência de interagir com as redes sociais até aparecer no vídeo de homenagem do Wlad. O vídeo assaltou-me a indiferença e submeteu-me às regras do jogo.

A presença extraordinária sempre esconde a ausencia ordinária...