Dizem que cachorro tem a cara do dono. Por alguma razão insondável, o melhor amigo do homem também se parece com ele. Não sabemos explicar por quê, mas as coisas são como elas são.
Nessa última vez que estive no Brasil, isso foi ficando cada vez mais translúcido pra mim. Comecei inclusive a aprofundar as observações sobre o fenômeno e, com o tempo, fui percebendo, inclusive, de forma muito precisa, a diferença entre os canídeos franceses e brasileiros.
Tomem como primeira referência o meu próprio cachorro, Rolão, que é francês de pai e mãe.
O desgraçado é tranquilo, nunca late e tem aquela tranquilidade típica de um povo milenar que, de tantas conquistas, já não precisa provar mais nada pra ninguém (pois já tem o mundo aos pés).
Ao passo que os quadrúpedes brasileiros possuem temperamento diferente: um reflexo do nosso país, "o país do futuro", segundo Stefan Zweig, que ainda tem o mundo para conquistar e muito para provar.
Os caninos brasileiros são inquietos, vorazes, altamente ambiciosos ante a possibilidade de um pedaço de carne ou carinho. À imagem do nosso temperamento, também apresentam traços de passionalidade estocástica, de quem é intenso tanto no amor como no ódio.
Outro ponto que vale a pena mencionar é que, ao som de qualquer barulho, ou de algo que lhes pareça estranho, os filhos da puta começam a latir como raposas ferozes, de modo que tem se tornado quase impossível ter uma conversa razoável no Brasil (eu disse isso pra minha mãe, que, não ligando muito para a natureza sociológica do fenômeno, apenas disse que sou chato).
Mas, pra não cair naquele "anti-brasileirismo" fácil (anti-brasileirismo que é tão brasileiro como o próprio feijão com arroz), é inegável que as semelhanças se dão tanto para o bem como para o mal. Por exemplo, os cachorros brasileiros são também muito mais limpos e cheirosos do que os cachorros franceses.
O brasileiro ama tomar banho, uma das heranças de suas origens ameríndias, e os seus cachorros lhes imitam no asseio. Enquanto o cachorro Rolão, o francês, quando tem sorte, toma dois ou três banhos de detergente por ano, as cadelinhas da minha mãe vão para o cabeleireiro e manicure toda semana e estão sempre na estica, com os pelos na régua.
Mas o paroxismo da situação se deu com o cachorro da minha prima, Thomas Shelby.
Vocês que me acompanham certamente já ouviram falar da história do meu amigo Carlo Maltz, o comedor, que é a prova viva de que o nome é o destino. Pois isso se aplica perfeitamente ao quadrúpede da minha prima.
Thomas Shelby é o personagem principal da série Peaky Blinders, de Steven Knight. Estreada na BBC em meados de 2013, conta a história de um mafioso britânico carismático que vivia na cinzenta Inglaterra dos anos 20.
Apesar de ostentar calma estoica na maior parte da série, pontualmente Mister Shelby é acometido por acessos de fúria e trauma, momentos nos quais as imagens das malditas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, impregnadas na sua alma, voltam a atormentá-lo na forma de um fantasma sádico que insiste em puxar os seus pés durante a noite.
Pois os traumas de Mister Shelby, o herói da série, vieram misteriosamente incrustar-se em Mister Shelby, o perro brasileiro de Sorocaba, que também é acometido e perturbado pelas neuroses de uma guerra da qual nunca participou.
Eu pude perceber isso no final de semana que passei com Thomas Shelby, o cachorro, num sítio em Limeira. Ao som de qualquer avião, ou barulho de pássaro, ele começava a latir como um demônio desesperado, sem que ninguém pudesse fazer nada para acalmá-lo. Era como se o canino estivesse ouvindo os aviões da Luftwaffe se aproximando, carregados de bombas sinistras, e farejasse o próprio cheiro do gás de pimenta propagando-se pela trincheira exígua.
Ademais, a expressão do cachorro também era insólita: não se tratava daquela típica dos perros excitados na frente de um pedaço de picanha: ele tinha um olhar de pavor, o famoso "olhar de mil jardas", muito comum naqueles que se aproximam da morte, que só os veteranos de guerra podem reconhecer.
Preocupada, minha prima está em busca de soluções para o misterioso problema.
Nos últimos meses, Thomas Shelby tem visitado psicólogos, também fez constelação familiar e inscreveu-se no programa Guerrilha Way do doutor Ítalo Marsilli.
Os resultados ainda não são conclusivos, mas é muito provável que ele padeça de TDAH, ou daquele tipo de autismo de dupla excepcionalidade, do mesmo que padecem Elon Musk e Paulinho Kogos.
