domingo, 1 de novembro de 2026

O TRISTE FIM DO JUMENTO DIPLOMADO

No passado, eu era vidrado em documentários do Discovery Channel. Os temas que mais me interessavam eram as grandes revoluções e os regimes macabros: revolução russa, 1789, o hitlerismo no esplendor do seu poder.

Resignado, também tinha uma convicção de que nunca viveria de fato uma aventura parecida. Nessa época, meados de 2010, era como se estivéssemos instalados naquilo que Fukuyama chamou de “o fim da história” -- nada de novo poderia acontecer. O máximo de tensão política se encontrava naquela série de artigos "O Lula é Minha Anta", do Diogo Mainardi.

Nos debates eleitorais, também era uma profusão grotesca de esquerdismo língua de pau; a única coisa que se discutia era quem daria o maior desconto na tarifa de ônibus.

Até que chegamos no ano de 2013, e com ele, a História (com "H" maiúsculo), acordou do sono no qual jazia há muitas décadas.

As contradições dos sistemas de poder chegaram naquele ponto crucial no qual, como dizia Mao Tsé-Tung, a quantidade transmuta-se em qualidade, fazendo com que as flores da ambivalência começassem a germinar aqui e ali, desvelando a natureza das dinâmicas latentes que repousavam até então escondidas.

De 2013 até 2019, testemunhamos um crescendo de fenômenos subversivos, começando com a eleição do empresário punk Donald J. Trump em 2016. Depois disso, veio o Brexit, seguido da eleição de Jair Messias Bolsonaro em 2018.

Até que chegamos em 2020, e as primeiras ofensivas contra-revolucionárias foram se instalando.

Os establishments estudaram o inimigo novo, e depois de o compreenderem, empreenderam um ataque fatal naquilo que eu gosto de chamar de "Batalha do Covid", espécie de coordenação mundial complexa, orquestrada pelo poder oficial com o objectivo de destruir os novos opositores.

Nesse momento, lembrei-me dos pensamentos de 2010, convicto de que meus prognósticos se equivocaram.

A melíflua paz dentro da qual eu vivia, não era a paz do fim da história de Fukuyama, mas aquela de um sistema bem estabelecido, sem nenhum rival em posição de suplantá-lo.

De modo que a aventura que eu imaginava nunca viver, instalava-se agora diante dos meus olhos. 

No entanto, ela foi recebida com muito menos excitação do que severa preocupação.

Isso se deu porque aos poucos, fui colecionando provas cabais de que os regimes do nosso tempo estão tão contaminados pelo germe totalitário, como aqueles dos anos 30. Não obstante, a sutileza é que essa semente não está marcada com os traços de uma classe social ou raça específica.

Trata-se de um totalitarismo que tem a pretensão de ser científico, aparecendo para o publico com a fantasia de um tal pragmatismo cientifico supra-ideológico, corroborado por uma multidão de celerados incultos.

Vou explicar-lhes como isso aconteceu.

Na Inglaterra vitoriana e até meados dos anos 40, ápice do poderio geopolítico britânico, as elites dominantes não seguiam formação universitária no sentido estrito que elas seguem hoje em dia.

As especializações -- engenharia, medicina, direito, etc. -- eram feitas sob medida para a burguesia, ao passo que os filhos da aristocracia, seguiam formação totalmente diferente. Era uma educação que se assemelhava muito mais a uma ética.

Os alunos eram estimulados às práticas esportivas imbuídas do espírito “fair play”, tão em voga no inicio do football by the way, e recebiam a instrução das Artes Liberais — Gramática, Retórica, Dialética, Astrologia, Música, Geometria, Aritmética. Um bom exemplo são os alunos de John Ruskin, professor Slade de Belas Artes da Universidade de Oxford, que formou uma plêiade de jovens geniais como Cecil Rhodes, Alfred Milner, Arnold Toynbee, Oscar Wilde.

Portanto, a regra era formação literária e artes liberais para as elites, especialização acadêmica para as massas.

A ocupação dos ofícios públicos também seguia esta mesma lógica, de modo que essa elite ocupava os principais encargos do estado, delegando tarefas específicas e intelectualmente menores aos especialistas.

Nessa época, os donos do poder ainda tinham a consciência de que as grandes questões pertencem ao homem culto, não ao burocrata diplomado numa ciência específica.

Mas este tempo foi superado.

A Inglaterra pós-Primeira Guerra, tentou salvar o padrão ouro sem sucesso, e depois da Segunda Guerra, viu a sua moeda perder o prestígio do qual gozara por muitos séculos.

Junto com o sistema de Bretton Woods, desta vez ancorado no dólar, um novo tipo de indivíduo também emergiu: o burguês, que, compensava a sua falta de cultura com diplomas, pela ambição de subir na vida e um culto kitsch da eficiência.

Esse tipo de indivíduo corresponde ao arquétipo que ocupou o topo dos cargos e funções desde os anos 60 até a nossa época, aonde as consequências trágicas deste fenómeno começam a aparecer.

No Brasil, o paroxismo da situação pôde ser observado durante a época do Covid, na espécie de culto macabro a idiotas superdiplomados como Doutor Pirula e Átila Iamarino, pessoas cujo conhecimento científico é inversamente proporcional àquelas qualidades humanas excepcionais dos alunos do John Ruskin.

Mas como é que uma sociedade fez para fabricar esse tipo específico de pessoa?

Isso acontece porque a semente do conhecimento técnico que eles recebem na faculdade recai sobre uma terra árida, que é a alma desprovida de alta cultura. Este ermo desolado entra em contato em seguida com conceitos e idéias que até então desconhecia completamente, e, não tendo nenhuma referência com a qual comparar a nova realidade, toma todo aquele mundo como se tratasse da propria Atenas de Péricles e o ápice do pensamento humano, numa espécie de efeito hipnótico-estético vertiginoso.

Quando saem de lá com os seus respectivos diplomas, é como se tivessem recebido a unção sacerdotal que lhes habilita para o exercício dos grandes cargos e missões sagradas. Prontamente, tal jesuítas ante o gentio ameríndio, com os lábios trémulos e os olhos vazando luz, não hesitam a pregar as palavras da infalibilidade das ciências positivas, tal um profeta que abençoa a lei sagrada que ele mesmo encarna e apregoa.

O único problema é que essa espécie de indivíduo semi-educado e presunçoso, simplesmente não tem a estatura necessária para lidar com as grandes questões da humanidade.

Paradoxalmente, boa parte da população mundial, apesar de todo o bombardeio ideológico positivista, não caiu de todo nesta armadilha, de modo que muitos indivíduos, muitos inclusive sem educação formal, conseguem perceber a esparrela e vacuidade dos jumentos pseudo-cientistas, e continuam a afirmar fascistamente que 1+1=2, mesmo quando o professor doutor afirma que 1+1=3.

“As portas do inferno não hão de prevalecer contra a minha igreja”, nem mesmo a invasão vertical dos bárbaros travestidos de cientistas imparciais.

No Brasil, a coisa já começou a cair. Mas fui testemunha de algo estarrecedor nos últimos dias =

Uma senhora chamada Olivia Carneiro, que se gaba de ter estudado economia (como se não fosse um curso de bosta). Também se gaba de ter feito mestrado na University of Chicago (como se qualquer jumento numa faculdade pública também não conseguisse fazer).

Ela gosta de xingar coaches de internet, e congratula-se por ter sido orientada por um sujeiro que ganhou o prêmio Nobel -- coisa típica de caipira.

Assisti um ou dois vídeos da genial mestre de economia. É verdade que os coaches são fracos, mas ela critica a classe metralhando uma série de imbecilidades económicas, tudo com a convicção de quem desceu do Olimpo com um conhecimento sublime.

Por exemplo, a dona Olivia diz que a bolsa brasileira “só caiu porque o governo Lula não vai vender os ativos das estatais”, uma falácia de causa única que reduz um fenômeno complexo a um único fator irrelevante para a maior parte do índice

Em primeiro lugar, o Ibovespa reage sobretudo à trajetória fiscal (déficit primário, crescimento da dívida pública e a consequente manutenção de juros elevados), e não à decisão específica de privatizar ou não esta ou aquela estatal; governos que privatizaram intensamente também viram a bolsa despencar quando o mercado precificou deterioração das contas públicas, aumento de impostos e menor crescimento. Em segundo lugar, a maior parte do valor de mercado da bolsa é composta por empresas privadas (bancos, varejo, industriais, exportadoras etc.), cuja precificação cai quando se espera mais carga tributária, juros mais altos por mais tempo e menor expansão do consumo -- efeitos que não dependem da venda de ativos da Petrobras ou do Banco do Brasil, mas da percepção geral de risco fiscal e de política econômica.

Não obstante, as pessoas — todos idiotas incultos — idolatram a professora como se estivessem diante de um anjo, porque, veja bem, ela estudou com um Nobel. 

Quem não conhece a história da decadência das universidades europeias e americanas pode até se impressionar. 

sábado, 17 de outubro de 2026

O CAIPIRA DA EUROPA

Era mais um dia de estágio como outros.

E eu gozava da companhia da simpática Margherite Jacoux, minha tutora, que, por alguma razão, considerou que eu seria um bom candidato para o problema de engenharia que o seu laboratório estava tentando resolver.

Nessa época, que foi em meados de 2014, o meu nível de francês era horroroso, mas por algum motivo transcendente, eu conseguia entender Marg perfeitamente.

Nós almoçávamos com frequência numa salinha da École des Arts & Métiers. Em geral, cada um trazia a sua marmitinha e conversávamos sobre coisas banais, como o que tínhamos feito no final de semana; os pais falavam sobre os seus filhos, e os mais entregues de alma ao ofício davam detalhes sobre o desenvolvimento de suas pesquisas.

O chefe do departamento se chamava Thomas Veltou, uma espécie de gênio que andava pelos laboratórios de pijama (eu tenho uma tese de que cada país é sustentado por algumas dezenas de gênios que trabalham de pijama).

Ele voltava de férias e trazia algo da viagem. Eram uns biscoitinhos da Bretanha e, quando falava sobre o quitute, dizia que se tratava de um produto de qualidade excepcional, que era francês.

Margherite replicou: — “Ah, ele é francês?”, e devorou o doce com gosto, numa espécie de avidez febril.

Nesse dia descobri algo sublime: na França, dizer que algo é francês é o equivalente de dizer que se trata de uma coisa de qualidade.

Inexoravelmente, a comparação com o Brasil foi inelutável pra mim.

No nosso país, a regra é falar mal de tudo o que é brasileiro e de admirar com olhos rutilantes o que vem do exterior. Dizer que um produto ou objeto é brasileiro, no imaginário nacional, é equivalente a afirmar que a coisa é ruim.

Me lembrei de uma crônica do Nelson inclusive, acho que na coletânea “A Cabra Vadia”, na qual ele falava do brasileiro que, tal Mutley em busca das medalhas de Dick o Vigarista, adora ser adulado pelo gringo, como uma criança que fez o dever de casa e vem se gabar pomposa diante dos pais.

Mas perdoem-me pela divagação, vamos voltar para a história.

No outro dia, mais uma vez na hora do almoço, Margherithe trouxe um queijo Camembert da sua casa, e perguntou se eu gostaria de compartilhá-lo com ela. Na França, o código de conduta preconiza que é sempre a visita ou o convidado o primeiro a se servir, pois assim eu o fiz, e cortei um pedaço vultoso daquele queijo fedido e saboroso.

De repente, como que de sopetão, algo mudou no clima da sala e um ar de tensão se instalou. Percebi que minha tutora ficou incomodada com alguma coisa que eu não sabia explicar.

Na parte da tarde, ela veio até a sala onde eu estava para conversar comigo. — “Eric, preciso falar com você.” — “Pois não.” — “Eu preciso que você mude os parâmetros do seu modelo, eles não estão corretos.” — “Tudo bem, vou dar uma olhada.” — “E tem outra coisa.” Foi então que ela fechou a porta furtivamente.

Quando entrou, pegou um canetão e se moveu na direção de uma das lousas disponíveis na sala.

As equações foram apagadas, e ela desenhou no lugar um círculo -- um círculo fatal.

Em seguida, colocou o canetão no centro dele, deslizando com uma força quase a fender o bico até a extremidade da circunferência. — “Quando se corta um Camembert, começa-se do centro. Você não pode cortar na horizontal.”

Portanto, os parâmetros da equação de Prandtl-Reuss eram apenas um pretexto para direcionar um assunto mais importante: ela não gostou da forma como eu tinha cortado o queijo.

Acabei aquiescendo, como um tupinambá trazido do Brasil para uma exposição na corte de Luís XIV, com aquela subserviência típica do subdesenvolvido.

Nesse momento, por uma razão que me escapa, senti como se eu tivesse perdido os meus dentes. Sim, senti que subitamente fora dotado de banguelas esplêndidas, dessas em voga nas propagandas políticas. Era como se eu fosse um desses moradores de rua cumprimentado pelo candidato a vereador Paulinho Pindobas.

Durante a tarde, algumas memórias desfilaram na minha mente, e inelutavelmente voltei para aquele episódio de 10 anos atrás, na Três Lagoas da minha avó.

Como vocês sabem, naquele dia fatal de fevereiro, eu cheguei no SESI, quando fora acometido por uma horda de caipiras que vaticinaram o meu destino: “Istranhu! Istranhu! Você é o instranhu, o isquisitu!”

E eis que eu estava ali de novo, 10 anos depois, sendo estranho.

Eis que mais uma vez, como que num ciclo de natureza inescapável, eu estava ali perturbando o equilíbrio do ambiente com essa propriedade que me parece intrínseca: fazer as coisas estranhamente.

Não obstante, acometido como que por um raio de luz, intui a verdade de uma nova máxima inapelável: o francês, na realidade, é o caipira da Europa.

De modo que os sertanejos do Centro-Oeste não estão mais sozinhos no mundo, mas possuem companheiros sublimes em terras europeias.

O francês é o caipira da Europa, ou melhor: o caipira é o francês do Brasil.

“O meu povo perece por falta de conhecimento.”

Iluminado por esta nova verdade sublime, encontrei as forças necessárias para terminar o estágio, de modo a obter o tão sonhado diploma de engenheiro, uma grande vitória que não poderia deixar de ser celebrada.

Minha tia e minha mãe atravessaram o oceano especialmente com esse objetivo, e seriam testemunhas oculares desta façanha inapelável.

Na hora do jantar de gala, champanhes e vinhos brancos da Alsácia escorriam à farta, numa profusão espectral de aperitivos etéreos.

O prato principal era pato.

Duas taças, uma maior e outra menor, estavam dispostas na frente da minha tia quando uma garçonete chegou para servir o vinho tinto.

Naturalmente, minha tia pegou a taça maior, oferecendo-a delicadamente, de modo que o líquido báquico pudesse ser-lhe servido.

Não obstante, o olhar da servente mudou, e aquela atmosfera, aquela mesma da salinha de Angers, se instalou no recinto.

Sem saber o que fazer, a garçonete tentou encadear uma discussão em francês impossível de discernir e acabou deixando cair a garrafa. Algo na postura da minha tia perturbou-lhe.

Foi então que minha esposa, francesinha da Silva, explicou: a tia tinha escolhido a taça maior, que é aquela na qual só é possível beber água, ao invés de usar a taça menor, que é aquela na qual o vinho tinto deve ser servido.

sábado, 10 de outubro de 2026

OS ANOS 90 FORAM UMA ÉPOCA ROMÂNTICA

Não há nada de novo debaixo do sol, já dizia o sábio Salomão.

Sob a jurisdição desta máxima inapelável está o amor romântico.

Por alguma razão incompreensível, em alguns momentos da história, os homens derretem-se ante o sublime do sexo frágil.

Em linhas gerais, se pudéssemos traçar a história deste ciclo na epopéia da nossa civilização, a coisa tomaria as seguintes grandes linhas:

Épocas de romantismo exacerbado:
1. Século XII–XIII: a era do amor cortês, dos trovadores provençais e das histórias arturianas. O amor é elevado e etéreo; seu objeto é a virgem puríssima que, à imagem de Nossa Senhora, inspira o cavaleiro abnegado e sedento de sacrifício no campo de batalha.
2. Século XIX e início do século XX: surge o Romantismo como movimento (Byron, Goethe, Victor Hugo, Stendhal, Jane Austen), e aquela sentimentalidade viçosa, que vemos por exemplo no amor entre Elizabeth Bennet e Mr. Darcy.

Épocas de masculinidade bruta:
1. Século XVI–XVII: período dos duelos, do casamento enquanto aliança entre famílias, e do controle da perigosa sexualidade feminina. Em toda a Europa, os reis católicos colecionam amantes e favoritas, colocando-as inclusive em posição de eminência nas cortes.
2. Metade do século XX até o final dos anos 70 mais ou menos: época do macho provedor, da esposa submissa ao lar, extremamente feminina. O arquétipo é aquele do homem que só pensa em trabalho e sai à noite para se divertir com uísque e prostitutas, enquanto a mulher cuida de maneira pungente e resignada dos inúmeros filhos do casal. Vemos alguns exemplos muito em voga nos primeiros filmes da época do cinema, como Master of the House (1925), de Carl Theodor Dreyer, Housewife (1934), Mildred Pierce (1945) e Days of Wine and Roses (1962).

Mas por que estou dizendo isso? Me lembrei, porque eu emergi para o mundo nos anos 90.

E hoje está claro pra mim que se tratou de uma época romântica.

Uma das primeiras lembranças da minha vida foi um passeio no carro da minha tia. Estava tocando aquela música do Claudinho & Buchecha:

"Sabe, tchururu duh
Estou louco pra te ver, oh yes
Cabe, tchururu duh
Entre nós dois um querer…"

Espécie de canção melíflua, onde, numa melodia transbordante de emoção, o homem se entrega à amada, desvelando todos os mistérios da sua alma enamorada.

Com olhos vazando luz e os lábios trêmulos, eu ainda me lembro que ouvia essa balada, ao mesmo tempo que pensava na minha primeira namoradinha de Diadema.

Mas que o leitor não tome a coisa como uma grotesca extrapolação da minha experiência pessoal: todos os anos 90 foram uma profusão de música romântica e idealização da mulher.

Em todas as rádios, filmes da Sessão da Tarde e novelas das 9, era uma exuberância de untuosas cantilenas: "Save", cantada por um grupo de jovens loirinhos de traços delicadinhos e meio veadinhos, que se chamava Hanson, "Me Dê Motivo" de Tim Maia, "Garçom" de Reginaldo Rossi, "Morango do Nordeste" do grupo de pagode Karametade. As próprias bandas de rock abandonaram o trash punk estilo Sex Pistols e começaram a chorar as mágoas em baladas românticas, como "Iris" dos Goo Goo Dolls (1998), "I Don’t Want to Miss a Thing" do Aerosmith (1998) e "More Than Words" do Extreme. Como eu, quem cresceu ouvindo 89 FM A Rádio Rock (89,1 FM) sabe que só tocava isso

Mas vocês poderiam tentar replicar o meu argumento dizendo que também foi a época da banheira do Gugu, e do lascivo "É o Tchan", de Cumpadre Washington & Cia.

Aqui é importante fazer uma distinção importante: as épocas de romantismo são eróticas, ao passo que as épocas de machismo são pornográficas. Não se trata da mesma coisa.

As reboladas de Carla Perez surfavam sobre temas repletos de figuras de linguagem e poesia: era "vai ralando na boquinha da garrafa" daqui, “rebola esse seu corpinho de mola” pra lá; toda a coisa estava muito longe da lírica obscena de “Dingo Bell Sou Seu Papai Noel” de MC Teteu e “Chupa Xoxota” de MC 2K.

Portanto, do pagode até a soul music, passando pelo pop, música brega e rock’n roll. Todas as formas artísticas se encontram contaminadas por esta tônica inapelável: o homem dos anos 90 era deslumbrado pelo sexo feminino, que ele colocava em cima de um pedestal venerável.

Com o tempo, essas crianças, adolescentes e jovens adultos idealistas cresceram, e hoje dominam o mundo no qual vivemos.

Com o poder nas mãos, realizaram aquilo que lhes prometia a juventude: deram o mundo para as suas musas inapeláveis.

Não obstante, paradoxalmente, surpreendentemente, é precisamente a nossa época aquela na qual as senhoras mais protestam sobre a sua condição.

Nunca o movimento feminista foi tão poderoso, nunca a liberdade delas foi tão grande; e quanto mais lhes é concedido, tanto mais o tom das reivindicações aumenta.

E aí é que chegamos a esta conclusão desconfortável, mas inevitável: a mulher odeia visceralmente o romantismo, que nada mais é do que obra de homens que elas desprezam.

O movimento de emancipação no fundo é uma manifestação contra a boiolagem masculina contemporânea, que as donzelas traduzem de maneira tipicamente feminina: com termos ambíguos que escondem ao invés de desvelar a natureza real do problema.

Nelson Rodrigues dizia que nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais.

Portanto, se elas dizem que os machos as oprimem, o problema é que eles as deixam livres demais; se dizem que o problema é a importunação, é porque os homens chegam cada vez menos nelas; se dizem que o problema é que os maridos não ajudam em casa, é porque nunca os homens ajudaram tanto, etc.

Mas como eu citava no início, esta situação não pode durar para sempre, pois trata-se de um fenômeno cíclico.

Eis que o clamor feminino subiu até os céus; o Senhor ouviu-lhes, e já começou a enviar os profetas que vão guiá-las do deserto de sua opressão em direção à Terra Prometida: pastor Tupirani, Andrew Tate e uma plêiade de mestres sufis que começam a pulular aqui e ali, ensinando no Brasil e em todo o mundo ocidental as virtudes da sharia islâmica.

Os jovens brasileiros não ouvem mais Claudinho e Buchecha e Kenny G, mas estão desde o bercinho bebendo leitinho nas mamelas do Redcast, Calvo do Campari e MC Urubuzinho.

sábado, 26 de setembro de 2026

A cachorrada do Brasil

Dizem que cachorro tem a cara do dono. Por alguma razão insondável, o melhor amigo do homem também se parece com ele. Não sabemos explicar por quê, mas as coisas são como elas são.

Nessa última vez que estive no Brasil, isso foi ficando cada vez mais translúcido pra mim. Comecei inclusive a aprofundar as observações sobre o fenômeno e, com o tempo, fui percebendo, inclusive, de forma muito precisa, a diferença entre os canídeos franceses e brasileiros.

Tomem como primeira referência o meu próprio cachorro, Rolão, que é francês de pai e mãe.

O desgraçado é tranquilo, nunca late e tem aquela tranquilidade típica de um povo milenar que, de tantas conquistas, já não precisa provar mais nada pra ninguém (pois já tem o mundo aos pés).

Ao passo que os quadrúpedes brasileiros possuem temperamento diferente: um reflexo do nosso país, "o país do futuro", segundo Stefan Zweig, que ainda tem o mundo para conquistar e muito para provar.

Os caninos brasileiros são inquietos, vorazes, altamente ambiciosos ante a possibilidade de um pedaço de carne ou carinho. À imagem do nosso temperamento, também apresentam traços de passionalidade estocástica, de quem é intenso tanto no amor como no ódio.

Outro ponto que vale a pena mencionar é que, ao som de qualquer barulho, ou de algo que lhes pareça estranho, os filhos da puta começam a latir como raposas ferozes, de modo que tem se tornado quase impossível ter uma conversa razoável no Brasil (eu disse isso pra minha mãe, que, não ligando muito para a natureza sociológica do fenômeno, apenas disse que sou chato).

Mas, pra não cair naquele "anti-brasileirismo" fácil (anti-brasileirismo que é tão brasileiro como o próprio feijão com arroz), é inegável que as semelhanças se dão tanto para o bem como para o mal. Por exemplo, os cachorros brasileiros são também muito mais limpos e cheirosos do que os cachorros franceses.

O brasileiro ama tomar banho, uma das heranças de suas origens ameríndias, e os seus cachorros lhes imitam no asseio. Enquanto o cachorro Rolão, o francês, quando tem sorte, toma dois ou três banhos de detergente por ano, as cadelinhas da minha mãe vão para o cabeleireiro e manicure toda semana e estão sempre na estica, com os pelos na régua.

Mas o paroxismo da situação se deu com o cachorro da minha prima, Thomas Shelby.

Vocês que me acompanham certamente já ouviram falar da história do meu amigo Carlo Maltz, o comedor, que é a prova viva de que o nome é o destino. Pois isso se aplica perfeitamente ao quadrúpede da minha prima.

Thomas Shelby é o personagem principal da série Peaky Blinders, de Steven Knight. Estreada na BBC em meados de 2013, conta a história de um mafioso britânico carismático que vivia na cinzenta Inglaterra dos anos 20.

Apesar de ostentar calma estoica na maior parte da série, pontualmente Mister Shelby é acometido por acessos de fúria e trauma, momentos nos quais as imagens das malditas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, impregnadas na sua alma, voltam a atormentá-lo na forma de um fantasma sádico que insiste em puxar os seus pés durante a noite.

Pois os traumas de Mister Shelby, o herói da série, vieram misteriosamente incrustar-se em Mister Shelby, o perro brasileiro de Sorocaba, que também é acometido e perturbado pelas neuroses de uma guerra da qual nunca participou.

Eu pude perceber isso no final de semana que passei com Thomas Shelby, o cachorro, num sítio em Limeira. Ao som de qualquer avião, ou barulho de pássaro, ele começava a latir como um demônio desesperado, sem que ninguém pudesse fazer nada para acalmá-lo. Era como se o canino estivesse ouvindo os aviões da Luftwaffe se aproximando, carregados de bombas sinistras, e farejasse o próprio cheiro do gás de pimenta propagando-se pela trincheira exígua.

Ademais, a expressão do cachorro também era insólita: não se tratava daquela típica dos perros excitados na frente de um pedaço de picanha: ele tinha um olhar de pavor, o famoso "olhar de mil jardas", muito comum naqueles que se aproximam da morte, que só os veteranos de guerra podem reconhecer.

Preocupada, minha prima está em busca de soluções para o misterioso problema.

Nos últimos meses, Thomas Shelby tem visitado psicólogos, também fez constelação familiar e inscreveu-se no programa Guerrilha Way do doutor Ítalo Marsilli.

Os resultados ainda não são conclusivos, mas é muito provável que ele padeça de TDAH, ou daquele tipo de autismo de dupla excepcionalidade, do mesmo que padecem Elon Musk e Paulinho Kogos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Téquinha, o Gutim tá oiando!

Nesse final de semana, Gutinho ia visitar o pai. Era o ritual que ele cumpria a cada 15 dias, como muitas crianças da sua geração, numa época em que o divórcio ia se tornando muito mais regra do que exceção. Na prática, como o pai metia o pé, o moleque passava boa parte do tempo com Epaminondas e Maria Tereza, seus avós.

O privilégio de estar nesta Paraisópolis do final dos anos 90 era ser testemunha ocular do caos e do poder dos contrastes.

Nas vielas era uma profusão de botecos, pequenos comércios e igrejas neopentecostais, que pululavam em cada esquina como filhotinhos de coelho.

A tensão do espaço geográfico projetava-se sobre o tempo, e desembocava numa espécie de mal-estar surdo entre as gerações.

Os mais novos ouviam Racionais MC e vestiam roupas de marcas australianas de surf, todas fabricadas no Paraguai: Billabong, Rip Curl, Quiksilver etc., que podiam ser compradas no camelô por 5 reais a peça. Quando fazia sol, a pirralhada gostava de tirar a camiseta e ostentar o penteado que na época chamavam de "pica-pau" -- uma espécie de faixa larga contornando a cabeça inteira do indivíduo.

Já os mais velhos tinham um look clássico, que oscilava em torno de um mínimo múltiplo comum: bigode, boné da Arisco ou de candidatos a vereador, pochete, calça Cardin e sandálias, de modo que a única coisa em comum entre ancestrais e descendentes era a própria ambigüidade, que se manifestava na alma de todos na forma de uma confusão cega.

Epaminondas Eliseu da Silva guardava dentro de si essa ambivalência. Alagoano, filho de um fazendeiro rico, mudou-se para Paraisópolis no começo dos anos 70 com o objetivo de fugir da seca. Vendeu alguns gados e comprou o terreno, numa época em que a própria Paraisópolis ainda não se parecia com o favelão que veio a se tornar depois.

A personalidade de seu Minodão fora programada em dois modos extremos: ou fazia piadas macabras sobre tudo, ou encarnava o papel de evangelista inapelável, uma espécie de São Paulo ou John Wesley, que, com os lábios trêmulos, decretava sentenças fatais de condenação ao inferno.

De qualquer modo, seja fazendo piadas ou pregando a palavra do Senhor, a língua de Epaminondas era uma espada afiada -- e ninguém permanecia indiferente a ela.

Um de seus versículos preferidos era aquele que dizia: "quem não crer e for batizado, não será salvo". Também tinha uma máxima, que ele sempre compartilhava com Gutinho em tom professoral: "tudo que começa com 'P' não preixta: padre, púliça, paixtô, púlítico, puta...".

Falando em Gutinho, Epaminondas era cego de paixão pelo neto, e profetizava um futuro glorioso pra ele: "esse míninu vai sê dotô", de modo a encher o ego do garoto malandro, que se aproveitava da pseudo-ingenuidade do vô para ostentar um conhecimento que não tinha.

O pai de Gutinho também ficava pasmo ao ver como o próprio pai tratava o filho e eventualmente confessava, com os olhos rútilos, que nos anos 70 seu Minodão era o demônio. Autoritário, vivia descendo o cacete nele e no irmão, ao passo que para o neto era tudo amor puro.

Querem um exemplo? Às vezes, nos finais de semana em que ia pra lá, Gutinho acabava dormindo com a vó, botando Minodão pra dormir no chão. O moleque fazia do velho gato e sapato e se gabava disso para um pai cada vez mais embasbacado.

Dona Maria Tereza também amava o neto, mas tinha temperamento e mentalidade diferentes do marido. Uma de suas maiores preocupações era a de amenizar as piadas macabras e sentenças de Epaminondas, que escandalizava vizinhos, familiares e os amigos grã-finos de tia Mariana.

Ao contrário de Minodão, tia Mariana e Maria Tereza eram urbanizadas e zelavam pela opinião de amigos, família e vizinhança. A filosofia da filha mais velha era meio oriental, new age, e acabou influenciando vó Téquinha, que, apesar de evangélica, gabava-se de ser econômica, comer frutinhas e fazer exercícios -- reflexos inconscientes da própria filha, que a mãe absorvera com o objetivo de agradá-la.

De modo que a situação desta família articulava-se em torno de uma divergência entre duas filosofias e duas éticas: de um lado, a polidez urbanizada e a espiritualidade naturalista de tia Mariana; de outro, a intrepidez punk de Epaminondas Eliseu, que combinava-se de forma bombástica com o seu fervor temerário de mártir evangelista.

Olhando de fora, tinha-se a impressão de que o clã não era funcional, e que a harmonia da família iria algum dia para o caralho.

Não obstante, esta aparente tensão irreconciliável escondia uma verdade insondável: Maria Tereza e Epaminondas se amavam loucamente.

Essa verdade camuflada por trás das cortinas seria revelada para Gutinho, que descobriria a coisa com nuances de crueldade.

Como eu dizia ali em cima, o garoto fazia do vô gato e sapato e sempre dormia com os velhos, eventualmente botando Epaminondas no chão.

Mas nesta noite fatal de setembro, acabou não indo dormir na cama com a vó e instalou-se do lado, em um colchãozinho que ela tinha preparado pra ele.

Era mais uma daquelas típicas noites de Paraisópolis.

Dedeco, eterno vizinho dos avós, ligara o som do Chevette e ouvia “Shortinho Saint-Tropez”, do grupo de pagode Bokaloka.

Essa trilha sonora acabou ninando Gutinho, que dormiu por ali mesmo, com essa canção no segundo plano, enquanto pensava em mais um dia típico dos seus finais de semana em Paraisópolis: pipa, futebol na rua, Dragon Ball Z etc.

Até que um ruído macabro interrompeu o seu sono.

Quando olhou para o lado, viu Epaminondas saltando sobre a vó. E mais: que ele começara a beijá-la, sem que nenhuma resistência se manifestasse.

Tomado de assalto, levou alguns segundos para que Gutinho entendesse o que estava acontecendobali. Com um dos olhos abertos, espiava a cena, de modo a coletar as provas que o levariam inelutavelmente à esta conclusão fatal: Epaminondas Eliseu estava tentando comer a sua vó!

E foi aí que algo misterioso aconteceu.

Como que avisado pelo sussurro de um anjo da guarda, o avô deu um passo pra trás e, balbuciando, sentenciou de forma frustrada para a esposa: "Téquinha, o Gutim tá oiando!"

Arrebatada, a velha colocou-se de pé sobre a cama em um segundo, num movimento de gato, e, vestindo a camisola, colocou um ponto final na incursão de Minodão.

Quando acordou, Gutinho não conseguia parar de pensar na cena que testemunhara, e sobre ela ruminava, ao mesmo tempo que digeria aquele café da manhã típico da casa, com pamonha, cuscuz e leite com café

sábado, 29 de agosto de 2026

Tudo é esquisito para o caipira

Para o caipira tudo é esquisito

Foi o que disse Olavo de Carvalho, em um dos sulfurosos programas da série "True Outspeak".

Essa máxima permaneceu muito tempo guardada na minha memória, até que um dia os pontos se ligaram e a coisa começou a fazer sentido pra mim.

Tudo começou em meados de 2003 e 2004, há mais de 20 anos.

Com a minha família, nos mudamos para Três Lagoas, Mato Grosso do Sul.

Nessa época, eu estava na oitava série do Ensino Fundamental, e a minha mãe me matriculou no SESI. Logo no primeiro dia de aula, por uma razão que me escapa, acabei chegando atrasado.

Nesse dia, o sol torava excitado, e quando cheguei na frente da sala da oitava série A, por uma razão de natureza arquitetural, parte dela se encontrava exposta à luz assassina do sol. Era aula de inglês.

O professor era um gordão de presença retumbante, e com os olhos rútilos, desvelava os segredos do verbo "To Be".

Não querendo atrapalhá-lo, decidi me instalar discretamente na parte iluminada do recinto. Todos os olhos se deslocaram para a minha direção; mas em silêncio, permaneci no meu lugar fingindo naturalidade.

Os outros alunos estavam na porção coberta pela sombra, certamente com o objetivo de escapar do calor mefistotélico da cidade das águas. Mas eu permaneci ali, incólume, exposto à luz do sol, que realmente não me incomodava.

Vocês já devem ter percebido que aos 14 anos de idade, eu era púdico e extremamente tímido. Na hora do intervalo, permaneci sozinho e gozava da companhia inconsciente dos meus pensamentos. Eu só queria saber como evitar o contato com aquele pessoal sem parecer ridículo.

Depois de um tempo, meus colegas começaram a voltar e dois deles vieram na minha direção.

Ambos olharam pra mim, e com os lábios trêmulos e os olhos vazando luz, como que possuídos pelo demônio, sentenciaram de maneira peremptória: "-Istranho! Istranho! Você é o istranho, o isquisito!"

Eu não poderia imaginar que esse veredicto fatal acompanharia toda a minha existência a partir de então.

"Estranho" era a alcunha pela qual as pessoas me chamariam dali por diante.

E eis que chegamos no ponto nevrálgico desta crônica.

Com o tempo, fui percebendo que não era apenas o fato de que permaneci no lado da sala iluminado pelo sol naquele dia fatal o que havia confrontado meus colegas -- toda a minha existência lhes perturbava e era motivo de escândalo.

Foi então que cheguei a esta conclusão fatal: existia um abismo intransmutável entre mim e o caipira.

Vivíamos na mesma cidade, passávamos boa parte do dia juntos como irmãozinhos. Mas algo de natureza metafísica nos separava.

Para mim, era normal imaginar que indivíduos oriundos de lugares diferentes se comportassem de maneira diferente, ao passo que tal pensamento não passava pela cabeça do caipira -- a presença do diferente tomava-o de assalto.

Os advogados do diabo aventam a hipótese de que se tratava de um problema com a minha pessoa especificamente, que não existiria relação com o conceito de diferença de forma geral. Mas é um ledo engano.

Pegue um caipira, e leve-o para contemplar as pirâmides de Gizé: você vai ser surpreendido pelo fato de que ele vai achar tudo aquilo muito "isquisito".

Leve-o para a Capela Sistina, para o museu do Louvre. Tudo lhe parecerá sinistramente estranho, e ele não hesitará em desvelar os seus decretos com a convicção de quem já escamoteou todos as entranhas e mistérios da vida

terça-feira, 31 de março de 2026

O nome é o destino

"O nome é o destino". 

É o que diz Eric Zemmour, expoente da direita francesa, quando em seus discursos troveja contra a liberdade outorgada pelo estado aos pais, que desde a fatídica lei nº 93-22, de 8 de janeiro de 1993, têm o poder de darem a seus filhos os nomes que bem entenderem.

Muitos não  percebem, mas Zemmour compreendeu muito bem esta verdade um tanto elusiva, mas mortalmente profunda: o nome possui um peso importantíssimo na vida do sujeito, investindo-o de uma aura inelutável, contra a qual nem mesmo a vontade mais tenaz pode se opor.

Veja o exemplo do meu amigo Carlo Maltz. Apesar de fazer parte de nosso Areópago Digital, ele não corresponde em nada ao arquétipo do típico intelectual.

Também pudera. Com esse nome? Como a coisa poderia se dar de forma diferente?

Eric do Carmo Ribeiro Silva e Luciano Machado Tomaz são nomes de escritores, de poetas. Soam quase como Camilo Castelo Branco, Manuel Antônio de Almeida. 

Agora Carlo Maltz, não. 

Carlo Maltz é nome de comedor. É nome de fotógrafo buceteiro -- velejador rico e desflorador de modelos sublimes. Tipo Amir Kink, Joshua Slocum, Robert Scheidt, Théo Becker.

É nome de empresário meio gênio e meio sacana, meio milionário e meio quebrado: que tem cobertura em Copacabana em litígio judicial.

Um Carlo Maltz digno deste nome é certamente amigo de grã-finos e mendigos, também frequenta grandes empresários e traficantes; oscila aqui e ali, entre o bas-fond do inferno e o sétimo céu, numa espécie de epopéia dantesca meio dandy.

Na última semana, o nosso amigo teve experiências que confirmaram esta verdade ontológica. Em poucos dias, conseguiu a façanha de perder 20.000 mil dólares, apaixonou-se por uma gostosa e jurou ter 6 filhos com ela (mas no dia seguinte, descobriu que na realidade tratava-se de uma espiã, que incrustara-se em sua vida com o objetivo de sabotá-lo). Na mesma semana, o nosso herói também foi perseguido por mafiosos, e teve que que fugir para outro continente. Um thriller digno de James Bond.
Mas veja bem, nada disso seria possível se o nosso amigo não se chamasse Carlo Maltz. Um Rafael dos Santos Ramalho não poderia viver experiências dessa natureza.

Compartilhei essa ideia com o próprio Carlo Maltz, que achou a coisa engraçada. Inclusive, autorizou-me a ir até o final da inspiração criativa que acabara de receber.

Durante as conversas, ocorreu-me igualmente um insight acerca de outro amigo em comum, e um dos maiores expoentes do movimento olavista: Ronald Robson. Talvez o único dos alunos de Olavo de Carvalho que estudou pormenorizadamente a sua obra -- e que escreveu livros.

O seu talento filosófico é inelutável e estarrecedor, mas o nome permanece obstrutivo: Ronald Robson.
Ronald Robson não é nome de filósofo. É nome de jogador de futebol, é uma mistura de Ronaldinho e Robgol.

Ao pronunciar Ronald Robson, é inevitável para mim não pensar numa narração de Silvio Luís, relatando as jogadas formidáveis de nosso amigo com a camisa amerelinha, driblando uma fila de zagueiros e marcando um golaço de placa.

Veritas filia temporis. Como é que o destino vai resolver a situação paradoxal de nosso amigo, intelectual notável, que possui nome de craque de bola e a sabedoria de um grande filósofo?
Talvez isso seja um sinal da Fortuna, e que as glórias de nossa equipe nacional tenham sido apenas uma imagem de outras glórias, ainda mais auspiciosas, que estão por vir e hão de se desdobrar sobre o destino do Brasil.