sábado, 26 de setembro de 2026

A cachorrada do Brasil

Dizem que cachorro tem a cara do dono. Por alguma razão insondável, o melhor amigo do homem também se parece com ele. Não sabemos explicar por quê, mas as coisas são como elas são.

Nessa última vez que estive no Brasil, isso foi ficando cada vez mais translúcido pra mim. Comecei inclusive a aprofundar as observações sobre o fenômeno e, com o tempo, fui percebendo, inclusive, de forma muito precisa, a diferença entre os canídeos franceses e brasileiros.

Tomem como primeira referência o meu próprio cachorro, Rolão, que é francês de pai e mãe.

O desgraçado é tranquilo, nunca late e tem aquela tranquilidade típica de um povo milenar que, de tantas conquistas, já não precisa provar mais nada pra ninguém (pois já tem o mundo aos pés).

Ao passo que os quadrúpedes brasileiros possuem temperamento diferente: um reflexo do nosso país, "o país do futuro", segundo Stefan Zweig, que ainda tem o mundo para conquistar e muito para provar.

Os caninos brasileiros são inquietos, vorazes, altamente ambiciosos ante a possibilidade de um pedaço de carne ou carinho. À imagem do nosso temperamento, também apresentam traços de passionalidade estocástica, de quem é intenso tanto no amor como no ódio.

Outro ponto que vale a pena mencionar é que, ao som de qualquer barulho, ou de algo que lhes pareça estranho, os filhos da puta começam a latir como raposas ferozes, de modo que tem se tornado quase impossível ter uma conversa razoável no Brasil (eu disse isso pra minha mãe, que, não ligando muito para a natureza sociológica do fenômeno, apenas disse que sou chato).

Mas, pra não cair naquele "anti-brasileirismo" fácil (anti-brasileirismo que é tão brasileiro como o próprio feijão com arroz), é inegável que as semelhanças se dão tanto para o bem como para o mal. Por exemplo, os cachorros brasileiros são também muito mais limpos e cheirosos do que os cachorros franceses.

O brasileiro ama tomar banho, uma das heranças de suas origens ameríndias, e os seus cachorros lhes imitam no asseio. Enquanto o cachorro Rolão, o francês, quando tem sorte, toma dois ou três banhos de detergente por ano, as cadelinhas da minha mãe vão para o cabeleireiro e manicure toda semana e estão sempre na estica, com os pelos na régua.

Mas o paroxismo da situação se deu com o cachorro da minha prima, Thomas Shelby.

Vocês que me acompanham certamente já ouviram falar da história do meu amigo Carlo Maltz, o comedor, que é a prova viva de que o nome é o destino. Pois isso se aplica perfeitamente ao quadrúpede da minha prima.

Thomas Shelby é o personagem principal da série Peaky Blinders, de Steven Knight. Estreada na BBC em meados de 2013, conta a história de um mafioso britânico carismático que vivia na cinzenta Inglaterra dos anos 20.

Apesar de ostentar calma estoica na maior parte da série, pontualmente Mister Shelby é acometido por acessos de fúria e trauma, momentos nos quais as imagens das malditas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, impregnadas na sua alma, voltam a atormentá-lo na forma de um fantasma sádico que insiste em puxar os seus pés durante a noite.

Pois os traumas de Mister Shelby, o herói da série, vieram misteriosamente incrustar-se em Mister Shelby, o perro brasileiro de Sorocaba, que também é acometido e perturbado pelas neuroses de uma guerra da qual nunca participou.

Eu pude perceber isso no final de semana que passei com Thomas Shelby, o cachorro, num sítio em Limeira. Ao som de qualquer avião, ou barulho de pássaro, ele começava a latir como um demônio desesperado, sem que ninguém pudesse fazer nada para acalmá-lo. Era como se o canino estivesse ouvindo os aviões da Luftwaffe se aproximando, carregados de bombas sinistras, e farejasse o próprio cheiro do gás de pimenta propagando-se pela trincheira exígua.

Ademais, a expressão do cachorro também era insólita: não se tratava daquela típica dos perros excitados na frente de um pedaço de picanha: ele tinha um olhar de pavor, o famoso "olhar de mil jardas", muito comum naqueles que se aproximam da morte, que só os veteranos de guerra podem reconhecer.

Preocupada, minha prima está em busca de soluções para o misterioso problema.

Nos últimos meses, Thomas Shelby tem visitado psicólogos, também fez constelação familiar e inscreveu-se no programa Guerrilha Way do doutor Ítalo Marsilli.

Os resultados ainda não são conclusivos, mas é muito provável que ele padeça de TDAH, ou daquele tipo de autismo de dupla excepcionalidade, do mesmo que padecem Elon Musk e Paulinho Kogos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Téquinha, o Gutim tá oiando!

Nesse final de semana, Gutinho ia visitar o pai. Era o ritual que ele cumpria a cada 15 dias, como muitas crianças da sua geração, numa época em que o divórcio ia se tornando muito mais regra do que exceção. Na prática, como o pai metia o pé, o moleque passava boa parte do tempo com Epaminondas e Maria Tereza, seus avós.

O privilégio de estar nesta Paraisópolis do final dos anos 90 era ser testemunha ocular do caos e do poder dos contrastes.

Nas vielas era uma profusão de botecos, pequenos comércios e igrejas neopentecostais, que pululavam em cada esquina como filhotinhos de coelho.

A tensão do espaço geográfico projetava-se sobre o tempo, e desembocava numa espécie de mal-estar surdo entre as gerações.

Os mais novos ouviam Racionais MC e vestiam roupas de marcas australianas de surf, todas fabricadas no Paraguai: Billabong, Rip Curl, Quiksilver etc., que podiam ser compradas no camelô por 5 reais a peça. Quando fazia sol, a pirralhada gostava de tirar a camiseta e ostentar o penteado que na época chamavam de "pica-pau" -- uma espécie de faixa larga contornando a cabeça inteira do indivíduo.

Já os mais velhos tinham um look clássico, que oscilava em torno de um mínimo múltiplo comum: bigode, boné da Arisco ou de candidatos a vereador, pochete, calça Cardin e sandálias, de modo que a única coisa em comum entre ancestrais e descendentes era a própria ambigüidade, que se manifestava na alma de todos na forma de uma confusão cega.

Epaminondas Eliseu da Silva guardava dentro de si essa ambivalência. Alagoano, filho de um fazendeiro rico, mudou-se para Paraisópolis no começo dos anos 70 com o objetivo de fugir da seca. Vendeu alguns gados e comprou o terreno, numa época em que a própria Paraisópolis ainda não se parecia com o favelão que veio a se tornar depois.

A personalidade de seu Minodão fora programada em dois modos extremos: ou fazia piadas macabras sobre tudo, ou encarnava o papel de evangelista inapelável, uma espécie de São Paulo ou John Wesley, que, com os lábios trêmulos, decretava sentenças fatais de condenação ao inferno.

De qualquer modo, seja fazendo piadas ou pregando a palavra do Senhor, a língua de Epaminondas era uma espada afiada -- e ninguém permanecia indiferente a ela.

Um de seus versículos preferidos era aquele que dizia: "quem não crer e for batizado, não será salvo". Também tinha uma máxima, que ele sempre compartilhava com Gutinho em tom professoral: "tudo que começa com 'P' não preixta: padre, púliça, paixtô, púlítico, puta...".

Falando em Gutinho, Epaminondas era cego de paixão pelo neto, e profetizava um futuro glorioso pra ele: "esse míninu vai sê dotô", de modo a encher o ego do garoto malandro, que se aproveitava da pseudo-ingenuidade do vô para ostentar um conhecimento que não tinha.

O pai de Gutinho também ficava pasmo ao ver como o próprio pai tratava o filho e eventualmente confessava, com os olhos rútilos, que nos anos 70 seu Minodão era o demônio. Autoritário, vivia descendo o cacete nele e no irmão, ao passo que para o neto era tudo amor puro.

Querem um exemplo? Às vezes, nos finais de semana em que ia pra lá, Gutinho acabava dormindo com a vó, botando Minodão pra dormir no chão. O moleque fazia do velho gato e sapato e se gabava disso para um pai cada vez mais embasbacado.

Dona Maria Tereza também amava o neto, mas tinha temperamento e mentalidade diferentes do marido. Uma de suas maiores preocupações era a de amenizar as piadas macabras e sentenças de Epaminondas, que escandalizava vizinhos, familiares e os amigos grã-finos de tia Mariana.

Ao contrário de Minodão, tia Mariana e Maria Tereza eram urbanizadas e zelavam pela opinião de amigos, família e vizinhança. A filosofia da filha mais velha era meio oriental, new age, e acabou influenciando vó Téquinha, que, apesar de evangélica, gabava-se de ser econômica, comer frutinhas e fazer exercícios -- reflexos inconscientes da própria filha, que a mãe absorvera com o objetivo de agradá-la.

De modo que a situação desta família articulava-se em torno de uma divergência entre duas filosofias e duas éticas: de um lado, a polidez urbanizada e a espiritualidade naturalista de tia Mariana; de outro, a intrepidez punk de Epaminondas Eliseu, que combinava-se de forma bombástica com o seu fervor temerário de mártir evangelista.

Olhando de fora, tinha-se a impressão de que o clã não era funcional, e que a harmonia da família iria algum dia para o caralho.

Não obstante, esta aparente tensão irreconciliável escondia uma verdade insondável: Maria Tereza e Epaminondas se amavam loucamente.

Essa verdade camuflada por trás das cortinas seria revelada para Gutinho, que descobriria a coisa com nuances de crueldade.

Como eu dizia ali em cima, o garoto fazia do vô gato e sapato e sempre dormia com os velhos, eventualmente botando Epaminondas no chão.

Mas nesta noite fatal de setembro, acabou não indo dormir na cama com a vó e instalou-se do lado, em um colchãozinho que ela tinha preparado pra ele.

Era mais uma daquelas típicas noites de Paraisópolis.

Dedeco, eterno vizinho dos avós, ligara o som do Chevette e ouvia “Shortinho Saint-Tropez”, do grupo de pagode Bokaloka.

Essa trilha sonora acabou ninando Gutinho, que dormiu por ali mesmo, com essa canção no segundo plano, enquanto pensava em mais um dia típico dos seus finais de semana em Paraisópolis: pipa, futebol na rua, Dragon Ball Z etc.

Até que um ruído macabro interrompeu o seu sono.

Quando olhou para o lado, viu Epaminondas saltando sobre a vó. E mais: que ele começara a beijá-la, sem que nenhuma resistência se manifestasse.

Tomado de assalto, levou alguns segundos para que Gutinho entendesse o que estava acontecendobali. Com um dos olhos abertos, espiava a cena, de modo a coletar as provas que o levariam inelutavelmente à esta conclusão fatal: Epaminondas Eliseu estava tentando comer a sua vó!

E foi aí que algo misterioso aconteceu.

Como que avisado pelo sussurro de um anjo da guarda, o avô deu um passo pra trás e, balbuciando, sentenciou de forma frustrada para a esposa: "Téquinha, o Gutim tá oiando!"

Arrebatada, a velha colocou-se de pé sobre a cama em um segundo, num movimento de gato, e, vestindo a camisola, colocou um ponto final na incursão de Minodão.

Quando acordou, Gutinho não conseguia parar de pensar na cena que testemunhara, e sobre ela ruminava, ao mesmo tempo que digeria aquele café da manhã típico da casa, com pamonha, cuscuz e leite com café

sábado, 29 de agosto de 2026

Tudo é esquisito para o caipira

Para o caipira tudo é esquisito

Foi o que disse Olavo de Carvalho, em um dos sulfurosos programas da série "True Outspeak".

Essa máxima permaneceu muito tempo guardada na minha memória, até que um dia os pontos se ligaram e a coisa começou a fazer sentido pra mim.

Tudo começou em meados de 2003 e 2004, há mais de 20 anos.

Com a minha família, nos mudamos para Três Lagoas, Mato Grosso do Sul.

Nessa época, eu estava na oitava série do Ensino Fundamental, e a minha mãe me matriculou no SESI. Logo no primeiro dia de aula, por uma razão que me escapa, acabei chegando atrasado.

Nesse dia, o sol torava excitado, e quando cheguei na frente da sala da oitava série A, por uma razão de natureza arquitetural, parte dela se encontrava exposta à luz assassina do sol. Era aula de inglês.

O professor era um gordão de presença retumbante, e com os olhos rútilos, desvelava os segredos do verbo "To Be".

Não querendo atrapalhá-lo, decidi me instalar discretamente na parte iluminada do recinto. Todos os olhos se deslocaram para a minha direção; mas em silêncio, permaneci no meu lugar fingindo naturalidade.

Os outros alunos estavam na porção coberta pela sombra, certamente com o objetivo de escapar do calor mefistotélico da cidade das águas. Mas eu permaneci ali, incólume, exposto à luz do sol, que realmente não me incomodava.

Vocês já devem ter percebido que aos 14 anos de idade, eu era púdico e extremamente tímido. Na hora do intervalo, permaneci sozinho e gozava da companhia inconsciente dos meus pensamentos. Eu só queria saber como evitar o contato com aquele pessoal sem parecer ridículo.

Depois de um tempo, meus colegas começaram a voltar e dois deles vieram na minha direção.

Ambos olharam pra mim, e com os lábios trêmulos e os olhos vazando luz, como que possuídos pelo demônio, sentenciaram de maneira peremptória: "-Istranho! Istranho! Você é o istranho, o isquisito!"

Eu não poderia imaginar que esse veredicto fatal acompanharia toda a minha existência a partir de então.

"Estranho" era a alcunha pela qual as pessoas me chamariam dali por diante.

E eis que chegamos no ponto nevrálgico desta crônica.

Com o tempo, fui percebendo que não era apenas o fato de que permaneci no lado da sala iluminado pelo sol naquele dia fatal o que havia confrontado meus colegas -- toda a minha existência lhes perturbava e era motivo de escândalo.

Foi então que cheguei a esta conclusão fatal: existia um abismo intransmutável entre mim e o caipira.

Vivíamos na mesma cidade, passávamos boa parte do dia juntos como irmãozinhos. Mas algo de natureza metafísica nos separava.

Para mim, era normal imaginar que indivíduos oriundos de lugares diferentes se comportassem de maneira diferente, ao passo que tal pensamento não passava pela cabeça do caipira -- a presença do diferente tomava-o de assalto.

Os advogados do diabo aventam a hipótese de que se tratava de um problema com a minha pessoa especificamente, que não existiria relação com o conceito de diferença de forma geral. Mas é um ledo engano.

Pegue um caipira, e leve-o para contemplar as pirâmides de Gizé: você vai ser surpreendido pelo fato de que ele vai achar tudo aquilo muito "isquisito".

Leve-o para a Capela Sistina, para o museu do Louvre. Tudo lhe parecerá sinistramente estranho, e ele não hesitará em desvelar os seus decretos com a convicção de quem já escamoteou todos as entranhas e mistérios da vida

terça-feira, 31 de março de 2026

O nome é o destino

"O nome é o destino". 

É o que diz Eric Zemmour, expoente da direita francesa, quando em seus discursos troveja contra a liberdade outorgada pelo estado aos pais, que desde a fatídica lei nº 93-22, de 8 de janeiro de 1993, têm o poder de darem a seus filhos os nomes que bem entenderem.

Muitos não  percebem, mas Zemmour compreendeu muito bem esta verdade um tanto elusiva, mas mortalmente profunda: o nome possui um peso importantíssimo na vida do sujeito, investindo-o de uma aura inelutável, contra a qual nem mesmo a vontade mais tenaz pode se opor.

Veja o exemplo do meu amigo Carlo Maltz. Apesar de fazer parte de nosso Areópago Digital, ele não corresponde em nada ao arquétipo do típico intelectual.

Também pudera. Com esse nome? Como a coisa poderia se dar de forma diferente?

Eric do Carmo Ribeiro Silva e Luciano Machado Tomaz são nomes de escritores, de poetas. Soam quase como Camilo Castelo Branco, Manuel Antônio de Almeida. 

Agora Carlo Maltz, não. 

Carlo Maltz é nome de comedor. É nome de fotógrafo buceteiro -- velejador rico e desflorador de modelos sublimes. Tipo Amir Kink, Joshua Slocum, Robert Scheidt, Théo Becker.

É nome de empresário meio gênio e meio sacana, meio milionário e meio quebrado: que tem cobertura em Copacabana em litígio judicial.

Um Carlo Maltz digno deste nome é certamente amigo de grã-finos e mendigos, também frequenta grandes empresários e traficantes; oscila aqui e ali, entre o bas-fond do inferno e o sétimo céu, numa espécie de epopéia dantesca meio dandy.

Na última semana, o nosso amigo teve experiências que confirmaram esta verdade ontológica. Em poucos dias, conseguiu a façanha de perder 20.000 mil dólares, apaixonou-se por uma gostosa e jurou ter 6 filhos com ela (mas no dia seguinte, descobriu que na realidade tratava-se de uma espiã, que incrustara-se em sua vida com o objetivo de sabotá-lo). Na mesma semana, o nosso herói também foi perseguido por mafiosos, e teve que que fugir para outro continente. Um thriller digno de James Bond.
Mas veja bem, nada disso seria possível se o nosso amigo não se chamasse Carlo Maltz. Um Rafael dos Santos Ramalho não poderia viver experiências dessa natureza.

Compartilhei essa ideia com o próprio Carlo Maltz, que achou a coisa engraçada. Inclusive, autorizou-me a ir até o final da inspiração criativa que acabara de receber.

Durante as conversas, ocorreu-me igualmente um insight acerca de outro amigo em comum, e um dos maiores expoentes do movimento olavista: Ronald Robson. Talvez o único dos alunos de Olavo de Carvalho que estudou pormenorizadamente a sua obra -- e que escreveu livros.

O seu talento filosófico é inelutável e estarrecedor, mas o nome permanece obstrutivo: Ronald Robson.
Ronald Robson não é nome de filósofo. É nome de jogador de futebol, é uma mistura de Ronaldinho e Robgol.

Ao pronunciar Ronald Robson, é inevitável para mim não pensar numa narração de Silvio Luís, relatando as jogadas formidáveis de nosso amigo com a camisa amerelinha, driblando uma fila de zagueiros e marcando um golaço de placa.

Veritas filia temporis. Como é que o destino vai resolver a situação paradoxal de nosso amigo, intelectual notável, que possui nome de craque de bola e a sabedoria de um grande filósofo?
Talvez isso seja um sinal da Fortuna, e que as glórias de nossa equipe nacional tenham sido apenas uma imagem de outras glórias, ainda mais auspiciosas, que estão por vir e hão de se desdobrar sobre o destino do Brasil.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Minha esposa é uma matadora de velhinhos

Há alguns anos, eu e minha esposa começamos a nos debruçar sobre a história de nossas famílias. Para isso, devotamo-nos à arte genealógica, cuja prática é bastante privilegiada dentro do vetusto Estado francês. Em geral, graças aos vultosos bancos de dados, os documentos são de fácil acesso, com informações de atestados de batismo, assim como certidões de nascimento, casamento e óbito.

Desde então, minha consorte mergulhou fundo nesta empreitada, ainda mais quando soube que seu avô materno, e bisavô paterno, foram personagens interessantíssimos, participando de dois dos eventos mais ululantes do século XX: a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Adrien Sellier, jovem soldado dourado (logo depois promovido a cabo), foi mobilizado durante a Grande Guerra contra os alemães, sobrevivendo teimosamente às batalhas de Verdun e de la Somme. Segundo o Gérard Cornu, o temível bisavô teria remanescido às hostilidades graças à ajuda de um camarada. No meio da tormenta, encontrara-se encalacrado num dos milhares de buracos de obus do campo de batalha, cujos solos eram letalmente movediços. Só não fora engolido pela terra porque um irmão de trincheira teria segurado sua cabeça, enquanto o solo aspirava-o para dentro de si com a força de uma torrente fatal.

Já o taciturno Gabriel Delacour, seu avô materno, foi afetado a um regimento de cavalaria blindada na Segunda Guerra Mundial. Acabou sucumbindo e feito prisioneiro pelos mesmos alemães, quando as linhas francesas foram quebradas na ousada manobra germânica da floresta das Ardennes. Como muitos outros de sua geração, acabou dispendendo parte da juventude como prisioneiro em um Stalag, aonde viveu e trabalhou de 1940 até 1945.

Definitivamente, a riqueza da matéria-prima soou de maneira fluvial ao ouvido de minha esposa, que desde então, saiu à procura das últimas testemunhas vivas que puderam conviver com os seus avós, em busca de mais detalhes sobre as suas peripécias.

O primeiro veterano a ser visitado foi Jean Benus, eterno vizinho de sua avó Raymonde. O encontro se deu em sua residência demoníaca -- e a conversa entre os dois durou horas a fio, com todos os detalhes sendo gravados no aplicativo de registro de voz.

Depois de alguns dias, surge a notícia fatal: o matusalênico velhinho batera as botas. 

Apesar da idade, a informação nos assaltou com surpresa, pois o nonagenário contador de histórias ostentava saúde homérica.

Na sequência, foi a vez de visitar Simone Sacavin, uma centenária identificada graças a uma foto rarefeita, que estava perdida numa caixa de fotos velha e empoeirada -- dessas que existem na casa de todas as famílias. Tratava-se de um registro dos anos 30, aonde a jovem Simone carregava nos braços um bebêzinho, ninguém menos do que a sua avó materna, Michelle Roussel: futura Michelle Sellier. Não demorou muito para que uma visita à anciã se materializasse. No entanto, pouco tempo depois que ela aconteceu, Simone acabou indo dessa para melhor.

Em seguida, teve também o caso de Jacky Roussel, tio de seu pai. Marinheiro, açougueiro de ponta e caçador. Era um dos maiores contadores de histórias da paróquia. Ao som de suas palavras, tínhamos a impressão de viajar no tempo; era uma testemunha eloqüente de um mundo que já não existe mais, e tinha o dom natural de ser o centro das atenções de uma platéia aquiescente. 

Depois de algumas visitas, nosso querido batedor -- também dotado de saúde homérica -- acabou sucumbindo face à luta contra um câncer traiçoeiro.

Dito isso, o mesmo script se repetiu com a visita que fez à Suzanne (derradeira rebenta dos 20 filhos de seus bisavós); assim como à Claude, o marido da prima de seu avô paterno: todos acabaram passando desta vida, logo depois de compartilharem com minha esposa um momento proustiano de reminiscências deliciosas.

O óbvio ululante é que todas essas histórias têm um fundo em comum: o fato de que a morte dos anfitriões se deu ulteriormente à visita da minha dileta.

Dotada de traços finos, assim como de rara feminilidade em tempos de feminismo militante, à primeira vista, tem-se diante da minha companheira a impressão de se estar na presença de uma Vênus -- ou de uma madame étérea, dessas dotadas de uma aura que remete às modelos de Bouguereau: uma delicadeza fisionômica e um semblante piedoso.

De fato, é uma delicadeza que não se restringe à beleza física, mas anda acompanhada de uma doçura de alma. Sempre atenta à necessidade do próximo, mais do que às suas próprias, ela tem uma candura que é coerente à suavidade do seu semblante. Ama as coisas e sentimentos leves; também se alimenta com uma frugalidade monástica: gosta de comer frutinhas, legumes e peixes...

Concordo com meus amigos muçulmanos, quando dizem que não é de bom agouro expor publicamente a virtudes da propria esposa. Mas nesse caso é míster fazê-lo, pois os auspícios macabros da morte são frequentemente acompanhandos pela delicadeza mortal de uma refinadíssima mulher. 

domingo, 16 de novembro de 2025

As fontes da vida no coração

Nada mais dramático do que um temperamento fleumático combinado com uma mente de natureza filosófica. O lado fleumático te faz naturalmente adaptável a qualquer tipo de circunstância, ao passo que a natureza filosófica -- e a tendência irresistível à reflexão -- instala com frequência o individuo num tal estado de dúvida, que não se é capaz de afirmar praticamente nada sobre nada. Cada problema, cada disputa, produz na sua mente dezenas de argumentos a favor, e dezenas de outros contra para cada um dos lados em jogo.

Por que estou falando disso? Sim, acabei de me lembrar. É porque gostaria de dizer algo sobre a importância do nosso coração. Sobre o fato de que ele não se limita ao órgão de carne disposto ao centro do nosso peito, levemente destacado para o lado esquerdo. "No coração residem as fontes da vida", já dizia o sábio Salomão.

O fato é que recentemente tive uma espécie de encontro com ele, meu coração. Foi como se depois de anos de elucubrações e estudos acerca do seu funcionamento fisiológico, da sua simbologia, ele tivesse decidido se apresentar para mim -- dotado de personalidade e com o objetivo de estabelecer um diálogo.

- "Olá Eric, prazer. Eu sou o seu coração". Foi o que me sussurrou enquanto eu tomava banho -- pensar enquanto se toma banho é um dos grandes prazeres da vida -- e convenceu-me de que eu deveria lutar mais pelas coisas que amo, ao invés de simplesmente me adaptar às circustâncias (fazendo jus à descrição que fiz no primeiro parágrafo, quando mencionava os desafios de uma natureza à la fois fleumática e filosófica).

Ele se apresentou trazendo consigo a companhia de uma pontada no peito, que se parece com uma dor, mas não é exatamente uma. Sabe aquela sensação que você tem quando vai ao profissional que destrava as costas, cujo nome esqueci (sou péssimo com o vocabulário médico-farmacêutico em geral), e que após uma boa estralada, faz você se sentir como se tivesse ressuscitado dos mortos? Foi isso, misturado com a percepção de que a névoa negra que pairava em torno do meu coração estivesse desaparecendo, como a luz da noite que se desmancha na presença da aurora.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

SOBRE CRESCER


O crescimento depende do aprendizado. E aprender, dos nossos erros. Os nossos erros, da CORAGEM de ser reprovado... De fazer o papel que você odeia. De prescindir dos aplausos e honrarias.

A coragem anda de mãos dadas com a fé, essa ferramenta usada por quem costuma andar no escuro. Quem caminha assim pensa que tá indo pra algum lugar. É o tipo de pessoa que não tem medo do que o véu da ausência de luz esconde. Mesmo que seja sua própria morte. (A fé é a conduta de quem aprendeu a morrer pra viver).

Quem é louco pra andar no breu também é louco pra andar sobre as águas e sobre o fogo. É a loucura da imunidade. Como se nessas condições extremas existisse a possibilidade de resgate. Da boa vontade e interesse de alguém indiferente à lógica das coisas. À lógica da morte e da entropia. Um interesse dramaticamente improvável quando o louco não tem nada pra dar além da própria loucura. Uma oferta somente aceita se enfeitada com os adornos de um inexplicável caso de amor. Entre aquilo que é e o que não é. Entre fugacidade e eternidade. Entre o fugidio e o perene. Presença e ausência. No casamento da dualidade. Do nada com toda a existência. Da majestade com o pó.

O amor é a seiva da árvore do crescimento. Crescer é viver e não existe outra forma de fazer isso. Só vivendo. A vida é o próprio amor. É o próprio Deus!