Não há nada de novo debaixo do sol, já dizia o sábio Salomão.
Sob a jurisdição desta máxima inapelável está o amor romântico.
Por alguma razão incompreensível, em alguns momentos da história, os homens derretem-se ante o sublime do sexo frágil.
Em linhas gerais, se pudéssemos traçar a história deste ciclo na epopéia da nossa civilização, a coisa tomaria as seguintes grandes linhas:
Épocas de romantismo exacerbado:
1. Século XII–XIII: a era do amor cortês, dos trovadores provençais e das histórias arturianas. O amor é elevado e etéreo; seu objeto é a virgem puríssima que, à imagem de Nossa Senhora, inspira o cavaleiro abnegado e sedento de sacrifício no campo de batalha.
2. Século XIX e início do século XX: surge o Romantismo como movimento (Byron, Goethe, Victor Hugo, Stendhal, Jane Austen), e aquela sentimentalidade viçosa, que vemos por exemplo no amor entre Elizabeth Bennet e Mr. Darcy.
Épocas de masculinidade bruta:
1. Século XVI–XVII: período dos duelos, do casamento enquanto aliança entre famílias, e do controle da perigosa sexualidade feminina. Em toda a Europa, os reis católicos colecionam amantes e favoritas, colocando-as inclusive em posição de eminência nas cortes.
2. Metade do século XX até o final dos anos 70 mais ou menos: época do macho provedor, da esposa submissa ao lar, extremamente feminina. O arquétipo é aquele do homem que só pensa em trabalho e sai à noite para se divertir com uísque e prostitutas, enquanto a mulher cuida de maneira pungente e resignada dos inúmeros filhos do casal. Vemos alguns exemplos muito em voga nos primeiros filmes da época do cinema, como Master of the House (1925), de Carl Theodor Dreyer, Housewife (1934), Mildred Pierce (1945) e Days of Wine and Roses (1962).
Mas por que estou dizendo isso? Me lembrei, porque eu emergi para o mundo nos anos 90.
E hoje está claro pra mim que se tratou de uma época romântica.
Uma das primeiras lembranças da minha vida foi um passeio no carro da minha tia. Estava tocando aquela música do Claudinho & Buchecha:
"Sabe, tchururu duh
Estou louco pra te ver, oh yes
Cabe, tchururu duh
Entre nós dois um querer…"
Espécie de canção melíflua, onde, numa melodia transbordante de emoção, o homem se entrega à amada, desvelando todos os mistérios da sua alma enamorada.
Com olhos vazando luz e os lábios trêmulos, eu ainda me lembro que ouvia essa balada, ao mesmo tempo que pensava na minha primeira namoradinha de Diadema.
Mas que o leitor não tome a coisa como uma grotesca extrapolação da minha experiência pessoal: todos os anos 90 foram uma profusão de música romântica e idealização da mulher.
Em todas as rádios, filmes da Sessão da Tarde e novelas das 9, era uma exuberância de untuosas cantilenas: "Save", cantada por um grupo de jovens loirinhos de traços delicadinhos e meio veadinhos, que se chamava Hanson, "Me Dê Motivo" de Tim Maia, "Garçom" de Reginaldo Rossi, "Morango do Nordeste" do grupo de pagode Karametade. As próprias bandas de rock abandonaram o trash punk estilo Sex Pistols e começaram a chorar as mágoas em baladas românticas, como "Iris" dos Goo Goo Dolls (1998), "I Don’t Want to Miss a Thing" do Aerosmith (1998) e "More Than Words" do Extreme. Como eu, quem cresceu ouvindo 89 FM A Rádio Rock (89,1 FM) sabe que só tocava isso
Mas vocês poderiam tentar replicar o meu argumento dizendo que também foi a época da banheira do Gugu, e do lascivo "É o Tchan", de Cumpadre Washington & Cia.
Aqui é importante fazer uma distinção importante: as épocas de romantismo são eróticas, ao passo que as épocas de machismo são pornográficas. Não se trata da mesma coisa.
As reboladas de Carla Perez surfavam sobre temas repletos de figuras de linguagem e poesia: era "vai ralando na boquinha da garrafa" daqui, “rebola esse seu corpinho de mola” pra lá; toda a coisa estava muito longe da lírica obscena de “Dingo Bell Sou Seu Papai Noel” de MC Teteu e “Chupa Xoxota” de MC 2K.
Portanto, do pagode até a soul music, passando pelo pop, música brega e rock’n roll. Todas as formas artísticas se encontram contaminadas por esta tônica inapelável: o homem dos anos 90 era deslumbrado pelo sexo feminino, que ele colocava em cima de um pedestal venerável.
Com o tempo, essas crianças, adolescentes e jovens adultos idealistas cresceram, e hoje dominam o mundo no qual vivemos.
Com o poder nas mãos, realizaram aquilo que lhes prometia a juventude: deram o mundo para as suas musas inapeláveis.
Não obstante, paradoxalmente, surpreendentemente, é precisamente a nossa época aquela na qual as senhoras mais protestam sobre a sua condição.
Nunca o movimento feminista foi tão poderoso, nunca a liberdade delas foi tão grande; e quanto mais lhes é concedido, tanto mais o tom das reivindicações aumenta.
E aí é que chegamos a esta conclusão desconfortável, mas inevitável: a mulher odeia visceralmente o romantismo, que nada mais é do que obra de homens que elas desprezam.
O movimento de emancipação no fundo é uma manifestação contra a boiolagem masculina contemporânea, que as donzelas traduzem de maneira tipicamente feminina: com termos ambíguos que escondem ao invés de desvelar a natureza real do problema.
Nelson Rodrigues dizia que nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais.
Portanto, se elas dizem que os machos as oprimem, o problema é que eles as deixam livres demais; se dizem que o problema é a importunação, é porque os homens chegam cada vez menos nelas; se dizem que o problema é que os maridos não ajudam em casa, é porque nunca os homens ajudaram tanto, etc.
Mas como eu citava no início, esta situação não pode durar para sempre, pois trata-se de um fenômeno cíclico.
Eis que o clamor feminino subiu até os céus; o Senhor ouviu-lhes, e já começou a enviar os profetas que vão guiá-las do deserto de sua opressão em direção à Terra Prometida: pastor Tupirani, Andrew Tate e uma plêiade de mestres sufis que começam a pulular aqui e ali, ensinando no Brasil e em todo o mundo ocidental as virtudes da sharia islâmica.
Os jovens brasileiros não ouvem mais Claudinho e Buchecha e Kenny G, mas estão desde o bercinho bebendo leitinho nas mamelas do Redcast, Calvo do Campari e MC Urubuzinho.