sábado, 26 de setembro de 2026

A cachorrada do Brasil

Dizem que cachorro tem a cara do dono. Por alguma razão insondável, o melhor amigo do homem também se parece com ele. Não sabemos explicar por quê, mas as coisas são como elas são.

Nessa última vez que estive no Brasil, isso foi ficando cada vez mais translúcido pra mim. Comecei inclusive a aprofundar as observações sobre o fenômeno e, com o tempo, fui percebendo, inclusive, de forma muito precisa, a diferença entre os canídeos franceses e brasileiros.

Tomem como primeira referência o meu próprio cachorro, Rolão, que é francês de pai e mãe.

O desgraçado é tranquilo, nunca late e tem aquela tranquilidade típica de um povo milenar que, de tantas conquistas, já não precisa provar mais nada pra ninguém (pois já tem o mundo aos pés).

Ao passo que os quadrúpedes brasileiros possuem temperamento diferente: um reflexo do nosso país, "o país do futuro", segundo Stefan Zweig, que ainda tem o mundo para conquistar e muito para provar.

Os caninos brasileiros são inquietos, vorazes, altamente ambiciosos ante a possibilidade de um pedaço de carne ou carinho. À imagem do nosso temperamento, também apresentam traços de passionalidade estocástica, de quem é intenso tanto no amor como no ódio.

Outro ponto que vale a pena mencionar é que, ao som de qualquer barulho, ou de algo que lhes pareça estranho, os filhos da puta começam a latir como raposas ferozes, de modo que tem se tornado quase impossível ter uma conversa razoável no Brasil (eu disse isso pra minha mãe, que, não ligando muito para a natureza sociológica do fenômeno, apenas disse que sou chato).

Mas, pra não cair naquele "anti-brasileirismo" fácil (anti-brasileirismo que é tão brasileiro como o próprio feijão com arroz), é inegável que as semelhanças se dão tanto para o bem como para o mal. Por exemplo, os cachorros brasileiros são também muito mais limpos e cheirosos do que os cachorros franceses.

O brasileiro ama tomar banho, uma das heranças de suas origens ameríndias, e os seus cachorros lhes imitam no asseio. Enquanto o cachorro Rolão, o francês, quando tem sorte, toma dois ou três banhos de detergente por ano, as cadelinhas da minha mãe vão para o cabeleireiro e manicure toda semana e estão sempre na estica, com os pelos na régua.

Mas o paroxismo da situação se deu com o cachorro da minha prima, Thomas Shelby.

Vocês que me acompanham certamente já ouviram falar da história do meu amigo Carlo Maltz, o comedor, que é a prova viva de que o nome é o destino. Pois isso se aplica perfeitamente ao quadrúpede da minha prima.

Thomas Shelby é o personagem principal da série Peaky Blinders, de Steven Knight. Estreada na BBC em meados de 2013, conta a história de um mafioso britânico carismático que vivia na cinzenta Inglaterra dos anos 20.

Apesar de ostentar calma estoica na maior parte da série, pontualmente Mister Shelby é acometido por acessos de fúria e trauma, momentos nos quais as imagens das malditas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, impregnadas na sua alma, voltam a atormentá-lo na forma de um fantasma sádico que insiste em puxar os seus pés durante a noite.

Pois os traumas de Mister Shelby, o herói da série, vieram misteriosamente incrustar-se em Mister Shelby, o perro brasileiro de Sorocaba, que também é acometido e perturbado pelas neuroses de uma guerra da qual nunca participou.

Eu pude perceber isso no final de semana que passei com Thomas Shelby, o cachorro, num sítio em Limeira. Ao som de qualquer avião, ou barulho de pássaro, ele começava a latir como um demônio desesperado, sem que ninguém pudesse fazer nada para acalmá-lo. Era como se o canino estivesse ouvindo os aviões da Luftwaffe se aproximando, carregados de bombas sinistras, e farejasse o próprio cheiro do gás de pimenta propagando-se pela trincheira exígua.

Ademais, a expressão do cachorro também era insólita: não se tratava daquela típica dos perros excitados na frente de um pedaço de picanha: ele tinha um olhar de pavor, o famoso "olhar de mil jardas", muito comum naqueles que se aproximam da morte, que só os veteranos de guerra podem reconhecer.

Preocupada, minha prima está em busca de soluções para o misterioso problema.

Nos últimos meses, Thomas Shelby tem visitado psicólogos, também fez constelação familiar e inscreveu-se no programa Guerrilha Way do doutor Ítalo Marsilli.

Os resultados ainda não são conclusivos, mas é muito provável que ele padeça de TDAH, ou daquele tipo de autismo de dupla excepcionalidade, do mesmo que padecem Elon Musk e Paulinho Kogos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Téquinha, o Gutim tá oiando!

Nesse final de semana, Gutinho ia visitar o pai. Era o ritual que ele cumpria a cada 15 dias, como muitas crianças da sua geração, numa época em que o divórcio ia se tornando muito mais regra do que exceção. Na prática, como o pai metia o pé, o moleque passava boa parte do tempo com Epaminondas e Maria Tereza, seus avós.

O privilégio de estar nesta Paraisópolis do final dos anos 90 era ser testemunha ocular do caos e do poder dos contrastes.

Nas vielas era uma profusão de botecos, pequenos comércios e igrejas neopentecostais, que pululavam em cada esquina como filhotinhos de coelho.

A tensão do espaço geográfico projetava-se sobre o tempo, e desembocava numa espécie de mal-estar surdo entre as gerações.

Os mais novos ouviam Racionais MC e vestiam roupas de marcas australianas de surf, todas fabricadas no Paraguai: Billabong, Rip Curl, Quiksilver etc., que podiam ser compradas no camelô por 5 reais a peça. Quando fazia sol, a pirralhada gostava de tirar a camiseta e ostentar o penteado que na época chamavam de "pica-pau" -- uma espécie de faixa larga contornando a cabeça inteira do indivíduo.

Já os mais velhos tinham um look clássico, que oscilava em torno de um mínimo múltiplo comum: bigode, boné da Arisco ou de candidatos a vereador, pochete, calça Cardin e sandálias, de modo que a única coisa em comum entre ancestrais e descendentes era a própria ambigüidade, que se manifestava na alma de todos na forma de uma confusão cega.

Epaminondas Eliseu da Silva guardava dentro de si essa ambivalência. Alagoano, filho de um fazendeiro rico, mudou-se para Paraisópolis no começo dos anos 70 com o objetivo de fugir da seca. Vendeu alguns gados e comprou o terreno, numa época em que a própria Paraisópolis ainda não se parecia com o favelão que veio a se tornar depois.

A personalidade de seu Minodão fora programada em dois modos extremos: ou fazia piadas macabras sobre tudo, ou encarnava o papel de evangelista inapelável, uma espécie de São Paulo ou John Wesley, que, com os lábios trêmulos, decretava sentenças fatais de condenação ao inferno.

De qualquer modo, seja fazendo piadas ou pregando a palavra do Senhor, a língua de Epaminondas era uma espada afiada -- e ninguém permanecia indiferente a ela.

Um de seus versículos preferidos era aquele que dizia: "quem não crer e for batizado, não será salvo". Também tinha uma máxima, que ele sempre compartilhava com Gutinho em tom professoral: "tudo que começa com 'P' não preixta: padre, púliça, paixtô, púlítico, puta...".

Falando em Gutinho, Epaminondas era cego de paixão pelo neto, e profetizava um futuro glorioso pra ele: "esse míninu vai sê dotô", de modo a encher o ego do garoto malandro, que se aproveitava da pseudo-ingenuidade do vô para ostentar um conhecimento que não tinha.

O pai de Gutinho também ficava pasmo ao ver como o próprio pai tratava o filho e eventualmente confessava, com os olhos rútilos, que nos anos 70 seu Minodão era o demônio. Autoritário, vivia descendo o cacete nele e no irmão, ao passo que para o neto era tudo amor puro.

Querem um exemplo? Às vezes, nos finais de semana em que ia pra lá, Gutinho acabava dormindo com a vó, botando Minodão pra dormir no chão. O moleque fazia do velho gato e sapato e se gabava disso para um pai cada vez mais embasbacado.

Dona Maria Tereza também amava o neto, mas tinha temperamento e mentalidade diferentes do marido. Uma de suas maiores preocupações era a de amenizar as piadas macabras e sentenças de Epaminondas, que escandalizava vizinhos, familiares e os amigos grã-finos de tia Mariana.

Ao contrário de Minodão, tia Mariana e Maria Tereza eram urbanizadas e zelavam pela opinião de amigos, família e vizinhança. A filosofia da filha mais velha era meio oriental, new age, e acabou influenciando vó Téquinha, que, apesar de evangélica, gabava-se de ser econômica, comer frutinhas e fazer exercícios -- reflexos inconscientes da própria filha, que a mãe absorvera com o objetivo de agradá-la.

De modo que a situação desta família articulava-se em torno de uma divergência entre duas filosofias e duas éticas: de um lado, a polidez urbanizada e a espiritualidade naturalista de tia Mariana; de outro, a intrepidez punk de Epaminondas Eliseu, que combinava-se de forma bombástica com o seu fervor temerário de mártir evangelista.

Olhando de fora, tinha-se a impressão de que o clã não era funcional, e que a harmonia da família iria algum dia para o caralho.

Não obstante, esta aparente tensão irreconciliável escondia uma verdade insondável: Maria Tereza e Epaminondas se amavam loucamente.

Essa verdade camuflada por trás das cortinas seria revelada para Gutinho, que descobriria a coisa com nuances de crueldade.

Como eu dizia ali em cima, o garoto fazia do vô gato e sapato e sempre dormia com os velhos, eventualmente botando Epaminondas no chão.

Mas nesta noite fatal de setembro, acabou não indo dormir na cama com a vó e instalou-se do lado, em um colchãozinho que ela tinha preparado pra ele.

Era mais uma daquelas típicas noites de Paraisópolis.

Dedeco, eterno vizinho dos avós, ligara o som do Chevette e ouvia “Shortinho Saint-Tropez”, do grupo de pagode Bokaloka.

Essa trilha sonora acabou ninando Gutinho, que dormiu por ali mesmo, com essa canção no segundo plano, enquanto pensava em mais um dia típico dos seus finais de semana em Paraisópolis: pipa, futebol na rua, Dragon Ball Z etc.

Até que um ruído macabro interrompeu o seu sono.

Quando olhou para o lado, viu Epaminondas saltando sobre a vó. E mais: que ele começara a beijá-la, sem que nenhuma resistência se manifestasse.

Tomado de assalto, levou alguns segundos para que Gutinho entendesse o que estava acontecendobali. Com um dos olhos abertos, espiava a cena, de modo a coletar as provas que o levariam inelutavelmente à esta conclusão fatal: Epaminondas Eliseu estava tentando comer a sua vó!

E foi aí que algo misterioso aconteceu.

Como que avisado pelo sussurro de um anjo da guarda, o avô deu um passo pra trás e, balbuciando, sentenciou de forma frustrada para a esposa: "Téquinha, o Gutim tá oiando!"

Arrebatada, a velha colocou-se de pé sobre a cama em um segundo, num movimento de gato, e, vestindo a camisola, colocou um ponto final na incursão de Minodão.

Quando acordou, Gutinho não conseguia parar de pensar na cena que testemunhara, e sobre ela ruminava, ao mesmo tempo que digeria aquele café da manhã típico da casa, com pamonha, cuscuz e leite com café