segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Téquinha, o Gutim tá oiando!

Nesse final de semana, Gutinho ia visitar o pai. Era o ritual que ele cumpria a cada 15 dias, como muitas crianças da sua geração, numa época em que o divórcio ia se tornando muito mais regra do que exceção. Na prática, como o pai metia o pé, o moleque passava boa parte do tempo com Epaminondas e Maria Tereza, seus avós.

O privilégio de estar nesta Paraisópolis do final dos anos 90 era ser testemunha ocular do caos e do poder dos contrastes.

Nas vielas era uma profusão de botecos, pequenos comércios e igrejas neopentecostais, que pululavam em cada esquina como filhotinhos de coelho.

A tensão do espaço geográfico projetava-se sobre o tempo e desembocava numa espécie de mal-estar surdo entre as gerações.

Os mais novos ouviam Racionais MC e vestiam roupas de marcas australianas de surf, todas fabricadas no Paraguai: Billabong, Rip Curl, Quiksilver etc., que podiam ser compradas no camelô por 5 reais a peça. Quando fazia sol, a pirralhada gostava de tirar a camisa e ostentar o penteado que na época chamavam de "pica-pau" -- uma espécie de faixa larga contornando a cabeça inteira do indivíduo.

Já os mais velhos tinham um look clássico, que oscilava em torno de um mínimo múltiplo comum inelutável: bigode, boné da Arisco ou de candidatos a vereador, pochete, calça Cardin e sandálias, de modo que a única coisa em comum entre ancestrais e descendentes era a própria ambigüidade, que se manifestava na alma de todos na forma de uma confusão meio cega.

Epaminondas Eliseu da Silva guardava dentro de si esta ambivalência. Alagoano, filho de um fazendeiro rico, mudou-se para Paraisópolis no começo dos anos 70 com o objetivo de fugir da seca. Vendeu alguns gados e comprou o terreno, numa época em que o própria Paraisópolis ainda não se parecia com o Favelão que veio a se tornar depois.

A personalidade de seu Minodão fora programada em dois modos extremos: ou fazia piadas macabras sobre tudo, ou encarnava o papel de evangelista inapelável, uma espécie de São Paulo ou John Wesley, que, com os lábios trêmulos, decretava sentenças fatais de condenação ao inferno.

De qualquer modo, seja fazendo piadas ou pregando a palavra do Senhor, a língua de Epaminondas era uma espada afiada -- e ninguém permanecia indiferente a ela.

Um de seus versículos preferidos era aquele que dizia: "quem não crer e for batizado, não será salvo". Também tinha uma máxima, que ele sempre dizia para Gutinho com o tom professoral: "tudo que começa com 'P' não prechta: padre, púliça, paixtô, púlitico, puta...".

Falando em Gutinho, Epaminondas era cego de paixão pelo neto e profetizava um futuro glorioso para ele: "esse míninu vai sê dotô", o velho dizia, de modo a encher o ego do garoto malandro, que se aproveitava da pseudo-ingenuidade do avô para ostentar um conhecimento que não tinha.

O pai de Gutinho também ficava pasmo ao ver como o próprio pai tratava o filho e eventualmente confessava, com os olhos rútilos, que nos anos 70 Seu Minodão era o próprio demônio. Autoritário, vivia descendo o cacete nele e no irmão, ao passo que para o neto tudo era amor puro.

Querem um exemplo? Às vezes, nos finais de semana em que ia pra lá, Gutinho acabava dormindo com a vovó, botando Seu Minodão pra dormir no chão. O moleque fazia do velho gato e sapato e se gabava disso para um pai embasbacado.

Dona Maria Tereza também amava o neto, mas tinha um temperamento e mentalidade muito diferentes do marido. Uma de suas maiores preocupações durante o dia era a de amenizar as piadas macabras e sentenças de Epaminondas, que escandalizava vizinhos, familiares e os amigos grã-finos de tia Mariana.

Ao contrário de Minodão, tia Mariana e Maria Tereza eram urbanizadas e zelavam pela opinião de amigos, família e vizinhança. A filosofia da filha mais velha era meio oriental, new age, e acabou influenciando vovó Téquinha, que, apesar de evangélica, gabava-se de ser econômica, comer frutinhas e fazer exercícios -- reflexos inconscientes da própria filha, que a mãe absorvera com o objetivo de agradá-la.

De modo que a situação desta família poderia ser articulada em torno de uma divergência entre duas filosofias e duas éticas: de um lado, a polidez urbanizada e a espiritualidade naturalista de tia Mariana; de outro, a intrepidez punk de Epaminondas Eliseu, que se combinava de forma bombástica com o seu fervor temerário de mártir evangelista.

Olhando de fora, tinha-se a impressão de que o clã não era funcional e que a harmonia da família iria algum dia para o caralho.

Não obstante, esta aparente tensão irreconciliável escondia uma verdade insondável: Maria Tereza e Epaminondas se amavam loucamente.

Essa verdade camuflada por trás das cortinas seria em breve descoberta por Gutinho, que descobriria a coisa com nuances de crueldade.

Como eu dizia ali em cima, o garoto fazia do avô gato e sapato e sempre dormia com os velhos, eventualmente botando Epaminondas no chão.

Mas nesta noite fatal de setembro, ele acabou não indo dormir na cama com a vovó e instalou-se do lado, em um colchãozinho que ela tinha preparado pra ele.

Era mais uma daquelas típicas noites de Paraisópolis.

Dedeco, eterno vizinho dos avós, ligara o som do Chevette e ouvia “Shortinho Saint-Tropez”, do grupo de pagode Bokaloka.

Essa trilha sonora acabou ninando Gutinho, que dormiu por ali mesmo, com esta canção no segundo plano, enquanto pensava em mais um dia típico dos seus finais de semana: pipa, futebol na rua, Dragon Ball Z etc.

Até que um ruído macabro interrompeu o seu sono profundo.

Quando olhou para o lado, viu Epaminondas saltando sobre a avó. E mais: que ele começara a beijá-la, sem que nenhuma resistência se manifestasse.

Tomado de assalto, levou alguns segundos para que Gutinho entendesse o que estava acontecendo. Com apenas um dos olhos abertos, começou a espiar a cena, de modo a coletar as provas que o levariam implacavelmente à seguinte conclusão: Epaminondas tava tentando comer a sua vó!

E foi aí que algo de misterioso aconteceu.

Como que avisado pelo sussurro de um anjo da guarda e no momento em que estava prestes a consumar sua investida, Epaminondas deu um passo para trás e, balbuciando, sentenciou de forma frustrada para a esposa: "Téquinha, o Gutim tá oiando!"

Tomada de assalto, a velha colocou-se de pé sobre a cama em um segundo, num movimento de gato, e, vestindo a camisola, acabou colocando um ponto final na incursão de Seu Minodão.

Quando acordou, Gutinho não conseguia parar de pensar na cena que testemunhara, e sobre ela ruminava, ao mesmo tempo que digeria aquele café da manhã típico da casa, com pamonha, cuscuz e leite com café.

Ele ia reorganizando os fatos da noite anterior na cabeça e, quanto mais pensava sobre a coisa, tanto mais convicto tornava-se de que havia muito mais coisas entre o céu e a terra do que imaginava a sua cabeça pueril de adolescente cabaço.