sábado, 17 de outubro de 2026

O CAIPIRA DA EUROPA

Era mais um dia de estágio como outros.

E eu gozava da companhia da simpática Margherite Jacoux, minha tutora, que, por alguma razão, considerou que eu seria um bom candidato para o problema de engenharia que o seu laboratório estava tentando resolver.

Nessa época, que foi em meados de 2014, o meu nível de francês era horroroso, mas por algum motivo transcendente, eu conseguia entender Marg perfeitamente.

Nós almoçávamos com frequência numa salinha da École des Arts & Métiers. Em geral, cada um trazia a sua marmitinha e conversávamos sobre coisas banais, como o que tínhamos feito no final de semana; os pais falavam sobre os seus filhos, e os mais entregues de alma ao ofício davam detalhes sobre o desenvolvimento de suas pesquisas.

O chefe do departamento se chamava Thomas Veltou, uma espécie de gênio que andava pelos laboratórios de pijama (eu tenho uma tese de que cada país é sustentado por algumas dezenas de gênios que trabalham de pijama).

Ele voltava de férias e trazia algo da viagem. Eram uns biscoitinhos da Bretanha e, quando falava sobre o quitute, dizia que se tratava de um produto de qualidade excepcional, que era francês.

Margherite replicou: — “Ah, ele é francês?”, e devorou o doce com gosto, numa espécie de avidez febril.

Nesse dia descobri algo sublime: na França, dizer que algo é francês é o equivalente de dizer que se trata de uma coisa de qualidade.

Inexoravelmente, a comparação com o Brasil foi inelutável pra mim.

No nosso país, a regra é falar mal de tudo o que é brasileiro e de admirar com olhos rutilantes o que vem do exterior. Dizer que um produto ou objeto é brasileiro, no imaginário nacional, é equivalente a afirmar que a coisa é ruim.

Me lembrei de uma crônica do Nelson inclusive, acho que na coletânea “A Cabra Vadia”, na qual ele falava do brasileiro que, tal Mutley em busca das medalhas de Dick o Vigarista, adora ser adulado pelo gringo, como uma criança que fez o dever de casa e vem se gabar pomposa diante dos pais.

Mas perdoem-me pela divagação, vamos voltar para a história.

No outro dia, mais uma vez na hora do almoço, Margherithe trouxe um queijo Camembert da sua casa, e perguntou se eu gostaria de compartilhá-lo com ela. Na França, o código de conduta preconiza que é sempre a visita ou o convidado o primeiro a se servir, pois assim eu o fiz, e cortei um pedaço vultoso daquele queijo fedido e saboroso.

De repente, como que de sopetão, algo mudou no clima da sala e um ar de tensão se instalou. Percebi que minha tutora ficou incomodada com alguma coisa que eu não sabia explicar.

Na parte da tarde, ela veio até a sala onde eu estava para conversar comigo. — “Eric, preciso falar com você.” — “Pois não.” — “Eu preciso que você mude os parâmetros do seu modelo, eles não estão corretos.” — “Tudo bem, vou dar uma olhada.” — “E tem outra coisa.” Foi então que ela fechou a porta furtivamente.

Quando entrou, pegou um canetão e se moveu na direção de uma das lousas disponíveis na sala.

As equações foram apagadas, e ela desenhou no lugar um círculo -- um círculo fatal.

Em seguida, colocou o canetão no centro dele, deslizando com uma força quase a fender o bico até a extremidade da circunferência. — “Quando se corta um Camembert, começa-se do centro. Você não pode cortar na horizontal.”

Portanto, os parâmetros da equação de Prandtl-Reuss eram apenas um pretexto para direcionar um assunto mais importante: ela não gostou da forma como eu tinha cortado o queijo.

Acabei aquiescendo, como um tupinambá trazido do Brasil para uma exposição na corte de Luís XIV, com aquela subserviência típica do subdesenvolvido.

Nesse momento, por uma razão que me escapa, senti como se eu tivesse perdido os meus dentes. Sim, senti que subitamente fora dotado de banguelas esplêndidas, dessas em voga nas propagandas políticas. Era como se eu fosse um desses moradores de rua cumprimentado pelo candidato a vereador Paulinho Pindobas.

Durante a tarde, algumas memórias desfilaram na minha mente, e inelutavelmente voltei para aquele episódio de 10 anos atrás, na Três Lagoas da minha avó.

Como vocês sabem, naquele dia fatal de fevereiro, eu cheguei no SESI, quando fora acometido por uma horda de caipiras que vaticinaram o meu destino: “Istranhu! Istranhu! Você é o instranhu, o isquisitu!”

E eis que eu estava ali de novo, 10 anos depois, sendo estranho.

Eis que mais uma vez, como que num ciclo de natureza inescapável, eu estava ali perturbando o equilíbrio do ambiente com essa propriedade que me parece intrínseca: fazer as coisas estranhamente.

Não obstante, acometido como que por um raio de luz, intui a verdade de uma nova máxima inapelável: o francês, na realidade, é o caipira da Europa.

De modo que os sertanejos do Centro-Oeste não estão mais sozinhos no mundo, mas possuem companheiros sublimes em terras europeias.

O francês é o caipira da Europa, ou melhor: o caipira é o francês do Brasil.

“O meu povo perece por falta de conhecimento.”

Iluminado por esta nova verdade sublime, encontrei as forças necessárias para terminar o estágio, de modo a obter o tão sonhado diploma de engenheiro, uma grande vitória que não poderia deixar de ser celebrada.

Minha tia e minha mãe atravessaram o oceano especialmente com esse objetivo, e seriam testemunhas oculares desta façanha inapelável.

Na hora do jantar de gala, champanhes e vinhos brancos da Alsácia escorriam à farta, numa profusão espectral de aperitivos etéreos.

O prato principal era pato.

Duas taças, uma maior e outra menor, estavam dispostas na frente da minha tia quando uma garçonete chegou para servir o vinho tinto.

Naturalmente, minha tia pegou a taça maior, oferecendo-a delicadamente, de modo que o líquido báquico pudesse ser-lhe servido.

Não obstante, o olhar da servente mudou, e aquela atmosfera, aquela mesma da salinha de Angers, se instalou no recinto.

Sem saber o que fazer, a garçonete tentou encadear uma discussão em francês impossível de discernir e acabou deixando cair a garrafa. Algo na postura da minha tia perturbou-lhe.

Foi então que minha esposa, francesinha da Silva, explicou: a tia tinha escolhido a taça maior, que é aquela na qual só é possível beber água, ao invés de usar a taça menor, que é aquela na qual o vinho tinto deve ser servido.

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